quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

É Natal! E daí?!

É Natal! E daí?!
É só mais um dia, ou você entendeu o que significa o Natal?
Não estou falando do Natal das religiões ou da sociedade do espetáculo, cheio de consumismo e imediatismo, mas do Natal do cara que disse para amarmos uns aos outros, para sermoas caridosos, para fazermos o bem, para não julgarmos os outros, para nos perdoamos mutuamente...
Foram coisas tão difíceis de se fazer que preferimos acender as luzes, colocar a música nas alturas, trocar presentes e beijos com quem nem mesmo estamos afim de verdade.
Hora de repensar o Natal!
Hora de ser manjedoura e deixar o Cristo nascer!
Hora de ser o Cristo, que eu acredito piamente, nunca pensou em religiões para exaltá-lo, mas que acreditou que cada um de nós poderia sê-Lo, desde que aprendêssemos a ser.
Que os princípios universais de paz, amor, caridade, harmonia, perdão se façam presentes em todos os 365 do novo ano!
Feliz nosso dia!



Foto - Elaine Oliveira


(Publicado originalmente na minha página do Facebook.)

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Por você... para sempre!

Conheceram-se e foi amor à primeira vista! 
Tinham tantas coisas em comum: amavam poesia, bolo de chocolate, músicas, cinema, praia... Eram tantas coisas em comum que as diferenças pareciam mínimas.
Casaram pouco tempo depois. E foram felizes para sempre!
Um dia, remexendo algumas coisas velhas, há muito tempo guardadas, achou o primeiro presente que ganhou: um CD do Barão Vermelho com uma música ressaltada em marcador amarelo.
Colocou a música para tocar e pegou o cartão com a dedicatória, a letra da música, e começou a rabiscar nele.
Sorriu ao terminar. Colocou dentro de uma sacolinha de papel, destas de entrega de revistas de cosméticos e pediu ao vizinho para que entregasse a ele, já que trabalhavam no mesmo escritório.
Ele reconheceu, de imediato, o presente dado a tanto tempo e o cartão que tinha escrito, com exceção das anotações recentes que diziam:
'Lembra?
Por você
Eu dançaria tango no teto (Tango?! Nem música lenta no chão, o que dirá tango no teto!)
Eu limparia os trilhos do metrô (Quem não limpa nem o próprio carro...)
Eu iria a pé do Rio a Salvador (Não a pé na padaria da esquina. Piada, né?)
Eu aceitaria a vida como ela é (Verdade! Fácil, fácil!)
Viajaria a prazo pro inferno (Quem viajou fui eu!)
Eu tomaria banho gelado no inverno (Nem no verão! Ha, ha, ha..)
Por você
Eu deixaria de beber (Água?!)
Por você
Eu ficaria rico num mês (Para me chamar de interesseira e golpista?)
Eu dormiria de meia prá virar burguês (Até sem meia você é burguês!)
Eu mudaria até o meu nome (Com certeza! Se chamar Aryosclênio Luciswaldo não deve ser muito fácil.)
Eu viveria em greve de fome (Greve de sopa de jiló e suco de chuchu!)
Desejaria todo dia
A mesma mulher (Até um sorriso vermelho olhar para você!)
Por você
Conseguiria até ficar alegre (Depois da segunda garrafa de vinho...)
Pintaria todo o céu de vermelho (Pintou! A tempestade que sucedeu a esta pintura foi fantástica!)
Eu teria mais herdeiros que um coelho (Para eu criar! Assim é tranquilo demais!)
...
Obrigada pelo tudo... e pelo quase nada.
Não aceito devolução do que já foi devolvido.
Grande beijo!'

Uma carinha sorridente encerrava as observações feitas no cartão antigo.
E foi assim que terminou um amor eterno que durou do cair do último raio de sol do verão ao primeiro pingo de chuva do inverno, mas que os fez felizes para sempre!

(Antes que pensem que é dedicado a alguém que tenha passado em minha vida, desculpa decepcionar, mas não é! Claro que na hora que escrevi, lembrei de alguéns, mas ninguéns em especial mereceu todo o escrito.
Por você... para sempre! foi inspirado nas consultas do meu cafesultório e nas conversas escutadas das amigas, das conhecidas e das desconhecidas nos ônibus, no salão de beleza, nas praças de alimentações dos shoppings e da vida.)


Capa do CD 'Puro Extase' - Barão Vermelho


quinta-feira, 5 de junho de 2014

Madrugada.

Você despertou uma saudade
Que não mais sentia.
O que faço agora
Presa entre tua ausência
E o raiar do dia?



Solidão - Heather Horton


('Saudade de coisa boa não é saudade, é alimento que a alma invade...' Achei linda esta definição de saudade!)


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Constatação

Coisas de alma:
Na física,
Faltou química!

Leonid Afremov - (Não identifiquei o nome do quadro)


(Na vida tudo é uma questão de constatação!)

terça-feira, 6 de maio de 2014

Primeiro ato

Fecham-se as cortinas.

Saem os atores do palco.

Sem aplausos, por favor.

Não foi um grande ato!


Imagem retirada da internet  sem indicação do autor

(A produção pede desculpas pela falha durante a apresentação. Aqueles que se sentiram lesados podem passar na bilheteria e receber seu dinheiro de volta. Prometemos uma atuação mais convincente no próximo espetáculo e agradecemos a sua confiança no nosso trabalho.)

MeuGuri!

Quando conheci MeuGuri ele tinha uns 14, 15 anos. Negro, cabelos pretos, magro, de uma beleza fora dos padrões considerados normais. Mais alto que eu como qualquer outro aluno daquela sala de segundo ano do segundo ciclo, hoje quinto ano.
Era conhecido, temido e odiado, tanto na sede da escola quanto no anexo onde funcionava nossa sala. O popular ‘pés da besta’, ‘peste dos infernos’, ‘cão do terceiro livro’... E era! Era tudo isto, metaforicamente falando, e até um pouco mais, eu diria.
Não acompanhava os conteúdos da sua turma de origem, não aceitava ajuda no contra turno para aprender o básico, não parava na sala de aula e circulava pela pequena escola, com uma sala dentro da outra, desfiando professoras e batendo em qualquer aluno com o qual cismasse e os únicos elogios que sabia dizer eram palavrões. Para desespero geral, nunca faltava! Era sempre um dos primeiros a chegar e o último a sair.
Um dia envolveu-se em uma briga com outro aluno. Não teve culpa. Pelo menos não de ter começado a briga. Sua culpa foi responder a agressividade do colega e se tornar partícipe dela.
Necessário se fazia chamar a família de ambos para uma reunião, no dia seguinte, com a diretora da escola.
Vale salientar que antes que eu pudesse intervir junto aos contendores, depois de acalmado os ânimos, já recebia o chamado para comparecer a sede da escola, onde recebi a ordem para chamar a família dos garotos.
No dia seguinte MeuGuri chegou logo cedo ‘para se lascar’, em suas próprias palavras, O outro aluno, nem ninguém da sua família compareceu a escola, assim como também não estavam lá a família dele nem a diretora.
Com raiva ele olhou para mim e perguntou se eu iria suspendê-lo. Nem tenho autoridade para tal, nem você tem culpa para ser suspenso. Por isto estou aqui. Para esclarecer o fato, respondi.
Ele arregalou os olhos como se, pela primeira vez, alguém acreditasse na sua inocência. Mas nós vamos ter uma conversa séria aproveitando que estamos sozinhos, emendei em seguida.
O cenário de uma biblioteca desarrumada, com livros e mesas empoeirados, escura e quente, talvez fosse mais apropriado a um filme ‘noir’ de gangster do que a uma conversa educativa.
MeuGuri sentou na cadeira a minha frente, de cara fechada, cabeça baixa e muita raiva no olhar, mas me ouviu caldo por uns bons vinte minutos. Falei das raivas que me fazia; das pancadas nas outras crianças; nas palavras agressivas e desrespeitosas que usava com todo mundo; na culpa que sempre levava, mesmo quando não estava presente aos fatos... Perguntei se ele achava legal ser odiado, temido e não ter ninguém na escola que gostasse dele...
- Você não vai me fazer chorar, resmungou com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada.
- Nem quero! Mas se quiser chorar, pode chorar a vontade porque para mim, por trás do cara de mau, metido a valente, você é somente um menino assustado e como estamos sozinhos, não vou contar para ninguém. Quando acabar de chorar, a gente volta a conversar.
- Ninguém sabe da minha vida...
- Então me conte e me ajude a entender.
Não ouvi mais nenhuma palavra. Também não disse mais nenhuma. Esperei ele se acalmar e propus voltarmos à escola.
No meio do caminho olhei para ele e disse que aproveitasse o voto de confiança que estava recebendo para mudar algumas atitudes e que se eu o encontrasse fazendo besteira, em qualquer lugar, eu lhe daria uma bronca na frente de qualquer um.
Ele parou no meio da rua e perguntou se eu sabia onde estávamos e se teria mesmo coragem. Se você duvida, experimenta! Respondi passando a sua frente e dobrando a esquina. MeuGuri ficou parado, pasmo como se tivesse visto assombração.
Alguma coisa mudou no comportamento de MeuGuri: apareceram sorrisos mais espontâneos, diminuiu o número de palavrões, passou a obedecer a mim quando estava azucrinando nos outros espaços da escola. A mim e a Patricinha, a professora da outra sala.
Quase tão menina quanto ele, Patricinha era a sua bonequinha, a namoradinha, a irmã ajuizada, alguém que falava com ele de igual para igual mesmo mantendo a distância que o cargo lhe conferia. Acho que o nosso jeito de trata-lo com firmeza e carinho, mas sem desculpas para os erros, o fez mudar seu olhar e o seu tratamento para conosco. Para nós ele era gente: gente problemática, mas gente.
Patricinha foi a primeira pessoa da escola para quem ele contou que estava envolvido com drogas. Estava usando maconha.
Em um fim de expediente ela chega para mim e pergunta: MeuGuri já te contou?
Com a negativa, ela me manda esperar e volta pouco depois empurrando um Meu Guri relutante pelas costas e ordena: conta!
- Depois eu conto...
- Agora!
E ele contou! Passamos do nosso horário de largar, do horário do ônibus, do horário da primeira aula na universidade conversando, tentando entender, ajudar, convencer e sei lá mais quantos verbos couberam naquela conversa. Demorou muito para que ele contasse tudo á mãe e mais um pouco até ela ir na escola conversar comigo e para tentarmos buscar uma saída.
Neste meio tempo apareceram novas, e quase imperceptíveis mudanças, aos olhos dos outros, em seu comportamento: colocar o braço no ombro de alguém e puxar para perto, rapidamente, a guisa de um abraço; tentar conversar com outras pessoas; ficar mais calmo nas outras salas quando fugia da sua de origem; não fumar na nossa frente ‘porque vocês não gostam’... Uma das coisas que gostava de fazer era me tirar do chão e rodar. Para mim um gesto de carinho, para os outros um desrespeito. Virou santo? Que nada! Ainda aprontava das suas. E muito!
Por causa dele fui convidada a comparecer à sala da direção algumas tantas vezes. Em uma das vezes ouvi que eu era condescendente demais; que estava apoiando quem não tinha jeito (diretora, você estava comigo na hora das conversas tantas?); que protegia demais (desculpa, mas nunca protegi nem os filhos!) e que eu estava ali para dar aulas e não para ser psicóloga ou analista dos problemas de MeuGuri.
Argumentei que ele estava mudando, que precisava ser escutado por alguém, aconselhado e, embora eu não fosse psicóloga, analista ou assistente social era em mim que ele começava a depositar confiança. Fui interrompida com a informação:
- Vou repetir: você não está aqui para ouvir os problemas de ninguém. Está aqui apenas para dar aula.
- Entendi! Respondi. Talvez algum traficante tenha tempo de ouvi-lo antes de jogá-lo no mercado de trabalho, que é que costuma acontecer por aqui, complementei saindo da sala para não mais voltar, já que pouco tempo depois o anexo virou escola independente.
Entre avanços e retrocessos nós seguimos em frente. Vi punições justas e outras tantas injustas e chegamos ao final do ano. Hora de passarmos os alunos para a nossa antiga sede pois, mesmo sem ter construído o conhecimento adequado à etapa em que se encontrava, MeuGuri não podia ser retido.
E ele pediu por isto. Pediu para ser reprovado, para não ser mandado para uma escola onde todos os odiavam, para ficar conosco.
Lembrei-me de uma conversa anterior quando perguntei o porquê dele querer tanto ficar na escola se não queria, realmente, estudar.
- Porque aqui ninguém me pega.
Aquela escola onde ainda não gostavam dele de verdade, onde algumas pessoas ainda agradeciam a sua ausência, que ainda não havia conseguido, de fato, despertar seu interesse pelos estudos, era o seu refugio. Era nela que o fornecedor não o alcançava, que ele não consumia.
Durante aquele ano tivemos várias conversas: relacionamento com o pai omisso, com o padrasto indiferente, mas de quem ‘eu até gosto’, a relação com a mãe, a chegada de um irmão... Informações recebidas e que foram apagadas pelo tempo, mas que resultaram em conselhos, em conversas com a mãe nas poucas vezes em que pode atender ao chamado para conversar comigo, em busca de atividades alternativas que o centrasse em outras coisas...
MeuGuri foi mesmo para a outra escola e eu passei, ou voltei, a ouvira as mesmas reclamações rotineiras quanto ao seu comportamento e, claro, não demorou muito para que ele abandonasse a escola alegando que ‘aquele lugar não dá prá mim’.
Vez por outra ele aparecia na escola procurando por mim ou por Patricinha. Nestes momentos nós sabíamos que ele estava bem. Chegava alegre, contava como estava a vida, escondia o cigarro comum para não levar bronca, mas levava do mesmo jeito. Depois desaparecia.
Um dia estava dando aula na área externa da escola quando ouvi alguém dizer:
- Esta professora continua gata!
Sem reconhecer a voz, virei e ele deu um sorriso, piscou o olho e abanou a mão dando tchau. Mandei que ele parasse e esperasse para falar comigo decentemente.
Abri o portão e ele, como de costume, me abraçou tirando do chão e rodando em plena calçada e me dando um monte de beijos.
A turma observava o encontro e um dos alunos perguntou se aquele era meu filho. Respondi que não, que tinha sido meu aluno, que tinha ‘comido o meu juízo’, me deixado de cabelos brancos, mas que eu amava de graça. Bem baixinho, ouvi quando ele disse:
- Pode dizer que sou seu filho.
Perguntei o que tinha dito e ele respondeu que nada e continuou a conversa dizendo que estava trabalhando, para ajudar a mãe a cuidar do irmão, vendendo macaxeira na feira de Prazeres, que estava pensando em voltar a estudar, mas não naquela escola ‘onde eu sou o cão’, que tinha deixado ‘aquele problema’. Sorri olhando para o bolso da camisa onde se via o maço de cigarros.
- Peraí, minha pequenininha! Já deixei o mais complicado e vou deixar este. Mas não sei quando não, visse? Respondeu sorrindo e olhando por cima da minha cabeça chamou a atenção da meninada que estava ocupada com a atividade que estávamos fazendo e disse:
- Respeito com ela viu, cambadinha? Ela é moral.
Me abraçou de novo com tanta força que doeu todo o tórax, me deu mais um monte de beijos e foi embora. Foi a última vez que o vi.
Saí da escola no final do ano e alguns meses depois, ao encontrar Patricinha, perguntei se tinha notícias dele. O espanto estampado no rosto já me fez imaginar que alguma coisa errada estava acontecendo. Pensei que ele tinha feito alguma grande besteira e estivesse preso.
Era pior! Ela me diz que ele morreu. Morreu com vários tiros por, e os detalhes novamente o tempo leva, envolvimento com tráfico de drogas, roubo de moto, as duas coisas, não lembro mais. Mas estava morto!
Meu coração levou um baque! MeuGuri não estava mais por aqui!
Não sei o que ele fazia quando não estava bem e não vou defende-lo se machucou  alguém ou lesou materialmente, caso tenha furtado, roubado assaltado, porque esta parte eu nunca tomei conhecimento. Nem por parte dele, nem por parte dos que moravam na área, nem por parte dos que não gostavam dele. Mas na hora da notícia, eu só lembrava do menino de cara amarrada, dos olhos tristes, do sorriso bonito, dos mesmos olhos agora meigos, dos abraços rodados, dos montes de beijos, às vezes dados até para irritar, que era a maneira pela qual ele conseguia demonstrar seu carinho.
Me veio a lembrança o menino, o adolescente, o homem antes do tempo que eu não pude ajudar de verdade, para o qual eu não achei saída a ponto de tirá-lo de um destino marcado e agendado. A lembrança do menino que disse que eu podia chama-lo de filho.
MeuGuri, como tantos outros que passaram pelas minhas mãos, não chegou aos dezoito anos.
Não vou carregar o peso de sua morte porque nos três anos de convivência fiz o possível para ajuda-lo, para dar-lhe limites, para demonstrar que ele podia, sim, ser amado por alguém que não fosse sua mãe.
Fazia tempo que não pensava nele e não lhe dedicava uma oração. Que, mesmo com todos os defeitos que tinha, ele possa ter sido recebido na casa do Pai e lhe tenha sido dada a oportunidade de se arrepender das coisas que fez, inclusive contra si mesmo, e encontrado um caminho de paz.
Tenho a sensação de que a história chega ao fim faltando um pedaço. Talvez porque, por ser a vida real, não tenha sido um final feliz. Talvez porque existam lacunas que nela que nunca serão preenchidas, seja porque foram esquecidas, seja porque nunca tenham sido ditas. Talvez porque, enquanto professora, que não tem a obrigação de amar seus alunos, mas acaba se envolvendo com eles, a realidade de não poder, de verdade, mudar uma realidade, ainda deixe a sensação de incompletude.

Talvez porque, enquanto eu estiver viva e professora for, meu destino seja estar ao lado dos MeuGuris da vida. E, como estou viva, esta história ainda não acabou...

Tintiliano - da série 'Menino triste'


(Há algum tempo eu vinha me preparando para escrever a história de MeuGuri. Uma conversa, no Facebook, com meus amigos Flávio Meira Lima e Jurandir Araújo, que eu nomeei de 'conversa séria demais para um sábado de manhã', fez a história vir a tona.
Quem me conhece provavelmente saberá quem é MeuGuri, qual a escola, mas protegi seu nome, e o de Patricinha, para não ofender ninguém que, mesmo sem nome, tenha sido citado, ainda que indiretamente, na história. 
Longa, dolorosa, talvez chata, mas contundentemente real e atual.)

sábado, 19 de abril de 2014

Se eu quiser falar com Deus...

Se eu quiser falar com Deus:
posso falar caminhando em uma rua esburacada,
carregada de sacolas, com as lâmpadas apagadas;
posso falar de dentro do ônibus lotado
no trânsito engarrafado;
posso falar da beira do fogão,
fazendo o almoço do dia,
ou de vassoura na mão,
cansada, varrendo o chão;
posso falar no meio de um encontro,
olhando o amado fumar, 
agradecendo por tudo que a gente possa passar;
posso falar tomando banho,
me livrando da sujeira.
de incômodos tamanhos;
posso falar sorrindo, chorando, com raiva;
posso falar calada, olhando uma estrela, uma flor,
um animal, uma estrada;
posso falar no meio da noite, acordando,
do nada;
posso falar dormindo, sonhando,
acreditando que estou acordada;
posso só erguer os olhos, os braços, suspirar;
posso falar para pedir;
posso falar para agradecer;
posso até não falar...
se acredito que a estrada,
muitas vezes dá em nada,
Ele sempre me ouvirá
mostrando, no tempo certo,
que sempre soube
onde eu deveria chegar!


(Foto Elaine Oliveira - Pôr do sol na Lagoa)



(Então é Páscoa! Nesta época, assim como no Natal, todo mundo lembra de ser bonzinho, de seguir rituais, de falar de fé, de amor, de confraternização, de união, dos ideais de Cristo, nos ensinamentos do Grande Pai... Boa época para lembrar que Ele não existe somente nestas datas.
Quer falar com Ele? Fale! Não espere a hora certa, o dia adequado, melhor igreja...
Convide-O a andar com você, conversando a qualquer momento.
Ele não estará somente contigo! Espalhará suas boas energias também aos que estão ao redor e necessitam da Sua presença.
Renasça o Cristo todos os dias!)

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Visita

Hoje a tristeza chegou,
Devagarzinho,
Para dois dedos de prosa
E um cafezinho.
Mandei sentar.
Ensaiou tirar os sapatos,
Queria ficar...
Dei uma risada,
Entreguei a bolsa,
Mandei passear!


Romero Britto - Summer


(Existe diferença entre os verbos SER e ESTAR. Esteja triste, mas nunca seja! Dois dedos de prosa com a tristeza são suficientes para que possamos dar valor a cada pequena alegria que a vida nos dá!)

domingo, 13 de abril de 2014

Pós existência

Abri o portão
Grade, porta da frente...
Urgente, fui entrando.
Escancarei
P  o  r  t  a  s
J  a  n e  l  a  s
P a  n e  l  a  s
G a  v e  t  a  s
E nada!
Voltei!
Jardim, caixa de correio
Computador, caixa de email...
Nada indicava tua presença na minha vida casa.
Buraco imenso
Engolindo tudo
Caminhos, desvio
Som, beijo macio
Segredos, carinhos
Marcas, amarras...
Olho, tudo de novo.
Tudo, de novo, no mesmo lugar.
Exatamente
Como deveria estar:
Vazio...
Suspiro devagar:
Você nunca existiu!

Lasar Segal - Dor

(Este começou a ser escrito a uns vinte anos. Depois de várias sessões de terapia com meus pacientes, seja no Facebook, seja por telefone, seja nas mesas do Café São Braz e lanchonetes da cidades, ele está acabado. Um pouco da história de muita gente...)

domingo, 6 de abril de 2014

Amor

Cometa Amor, passou!
Cometa amor, amor...
Ou passe!


 [[Imagem:Comet McNaught at Paranal.jpg|thumb|180px|Legenda]]





(Algumas coisas são tão simples, mas se fazem tão complicadas...)

domingo, 23 de março de 2014

Eu sou!!

Já me chamaram de encantadora: que eu seduza e fascine quem cruze o meu caminho;
Já me chamaram de luz: que eu possa iluminar os momentos mais escuros;
Já me chamaram de fogo: que eu aqueça a quem precisa...   e queime quem mereça;
Já me chamaram de doida: que a minha loucura seja perdoada porque nada se pode fazer contra ela;
Já me chamaram de palhaça: que meu riso, mesmo o que esconde a tristeza espalhe-se e contamine e restaure almas;
Já me chamaram de indescritível: que se encontrem palavras que me definam senão, talvez, eu não possa existir;
Já me chamaram pequena: que eu possa, assim, caber, nos corações, pensamentos e saudades de qualquer um;
Já me chamaram paixão: que eu entusiasme e emocione os que estão ao meu redor;
Já me chamaram de bruxa: que eu, mulher sábia transformada nela, lute pelos nossos direitos;
Já me chamaram de fada: que a minha magia transforme várias vidas;
Já me chamaram tempestade: que as minhas águas encharquem as terras secas e as torne férteis...
Já me chamaram de flor: que eu seja semente pronta para brotar transformando dias comuns em eternas primaveras cheias de flores e de cores;
Já me chamaram de perfeita: que eu não seja, porque o perfeito pode ser o acabado e eu preciso estar em constante evolução...
Podem  me chamar de Elaine: porque esta sou eu!



(Numa semana excepcionalmente feliz, ao fazer uma fala em defesa da Educação Infantil, minha paixão, ganhei um monte de fãs. Gente que se sentiu contemplada com a minha fala,  gente que não tem a coragem de ocupar o microfone, gente que disse: você me representa! Não vou dizer que não fiquei orgulhosa! Claro que fiquei! Faz bem ao ego saber que alguém te admira pela tua inteligência, coragem, ousadia, caráter, ética... Mas não deixe que eu te represente! Sou humana, posso errar! Daqui a alguns anos (muitos, eu espero), minha voz não mais poderá representar ninguém. Quem me representará? Se gostam mesmo de mim, representem-se para que eu possa,mais uma vez me orgulhar, não por te representar,mas por te inspirar a se representar! Mas, no fundo, que bom que eu sou!
P.S.- Morro de medo do microfone!)

domingo, 9 de março de 2014

Quero flores sim!

Em todas as atividades pelo 8 de março a que tenho ido, tenho escutado algumas coisas que me deixam um pouco incomodada.  As que ocupam os microfones dizem que não querem ganhar rosas, chocolates e cartões porque estes  atos não nos representam.
Participo das lutas e me desculpem, esta afirmação não me representa.
Quero ganhar cartões, chocolates, joias, perfumes e rosas. Por que não quereria?  Só por que sou guerreira e lutadora? Isto não me faz menos mulher ou menos feminina!
Presenteiem-me amigos, namorado, companheiro de luta ou de vida, patrão desde que os motivos do presente sejam  sinceros.
Que me venham cartões no dia das mulheres, no aniversário, no dia dos namorados, no Natal e no ano novo, no final de um bom trabalho, porque passei em um concurso, porque conclui uma etapa dos estudos ou apenas porque meu companheiro me viu na rua, descabelada, de short e camiseta e pés no chão e me achou, simplesmente,  linda!
Se os cartões apenas servirem para pedir desculpas pelas vezes que tentaram me obrigar a fazer algo que eu não quis, que me separaram dos meus amigos, que gritaram comigo em público ou em particular, que me humilharam, que brincaram com a minha competência ou com meus sentimentos, que disseram palavras que poderiam muito bem ter engolido...  Esqueçam e economizem papel porque não tocaram meu coração.
Que me tragam chocolates, sim! Ao leite, crocantes, amargos, brancos, com recheios variados, em caixa ou em barras. Tragam porque sabem que eu gosto mesmo sabendo que eu vou engordar (e daí? Gosto de você assim mesmo!); é uma forma de dizer que me ama;  porque o trabalho ficou fantástico mesmo depois do prazo; está feliz e querendo distribuir felicidade aos outros;  vamos ao cinema assistir aquele filme meloso que ele detesta, mas eu amo; porque vai passar futebol na TV e eu detesto, mas tendo chocolate a gente até torce junto...
Chocolate para tirar o gosto ruim que um tratamento infeliz deixou na boca; para adoçar palavras amargas que calaram fundo no peito; para tirar o mal estar do estômago depois de uma ação agressiva? Agradeço e dispenso! Estes não me fazem falta!
Joias, por que não?! E podem ser bijuterias mesmo!  Que me enfeitem os dedos, braços, pescoços e que sejam presenteadas a qualquer momento e não apenas em datas comemorativas. Que elas me agradeçam uma atenção em um momento de tristeza; comemorem uma meta alcançada ou simplesmente por achar, no caso de um companheiro, que ela era perfeita para me enfeitar.
Não me servirão joias que tentem me prender; comprar meu silêncio ou meu corpo; escondam marcas deixadas por dedos furiosos em meus pulsos o pescoço. Nestes casos, todo diamante perde o brilho.
E por que não querer perfumes? Pelos mesmos tantos outros motivos já citados; ou porque gosto daquela fragrância floral; ou pela lembrança de um cheiro que ficou na roupa...
Perfume que me faça sentir  mais feminina, mais menina, mais sedutora e que não sirva para disfarçar o cheiro da água sanitária, do alho, do coco das crianças e muito menos para  ocultar o cheiro do sangue que fizeram escorrer de qualquer parte do meu corpo por qualquer motivo que seja. Este perfume não me serve nem  que tenha sido encomendado ao melhor perfumista de Paris com o fragrância única e exclusiva para mim.
E quero rosas! Quero rosas, quero flores! De todas as cores; roubada de um jardim para enfeitar os cabelos; comprada na banquinha da esquina porque estou voltando de férias;  comprada no sinal, só para ajudar o rapaz a ir embora, e distribuída com todas no trabalho;  para agradecer o melhor programa do mundo, comer pipoca assistindo um filme qualquer da TV aberta; ou só porque deu vontade de me agradar! Quero rosas e flores em vida enquanto puder apreciar suas cores, sua maciez, seu perfume!
Não quero rosas para lembrar quem eu fui, apenas no meu funeral ou embrulhadas no papel das lembranças e dos remorsos dos vários machucados morais e físicos que me foram infringidos.
No entanto, quaisquer destes presentes não terão valor algum se vierem de algum que desconheça algumas palavras básicas e o que elas representam: direitos e respeito.
Quem quer que me presenteie deverá entender que eu tenho os meus direitos e que eles são, em tudo, iguaizinhos aos dele. E não são negociáveis! Por presente nenhum!
E que respeito é bom e todo mundo gosta, inclusive eu na minha condição de mulher! E que o respeito aos meus direitos, enquanto mulher, mãe, trabalhadora, amante, batalhadora  já é um grande passo para poder transformar  a vida de um monte de ‘EUS’ trazendo dignidade e melhorando a qualidade de vida de cada um de nós.
Então, que as rosas, chocolates, cartões, perfumes venham recheados de direitos e revestidos de respeito!



Claude Monet - Primavera

(Texto publicado originalmente na minha página pessoal do Facebook.)

domingo, 23 de fevereiro de 2014

E depois?

Ah! Ser de vento,
Que indiferente, acaricia o corpo,
Penetra pelo nariz
E, incontinente,
Como lento veneno,
Me corroí por dentro.
Ah! Ser de luz,
Que ilumina e seduz,
Me arranca da matriz
Gerando vida!
Ah! Ser de cor.
Seus matizes mostram:
No beco, também se vive o amor!
Santa, mulher, meretriz, aprendiz...
Estou tudo que sempre quis:
Invadida, iluminada, colorida,
Violada, vencida, enfeitiçada.
Ah! Ser de concreto,
Que de repente,
Não está mais perto.
Mas na distância finita,
Tua presença sinto ainda.
Ah! Ser de calor,
Para quem reservas teu amor,
Se estou só, sem mentor
E cada vez que te vejo:
No vento, na luz,
Na cor, no concreto,
No calor, em nós dois,
Me pergunto:

- E depois?

Monet - La Promenade Sur La Falaise


(Resultado de uma semana convivendo com escritores e contadores de histórias em 1997, eu acho! Recitei em algumas atividades e, sendo muito atrevida, cantava 'Onde está você?' inspirada em José Mauro Brant.)

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Testamento

Morri! E agora?!
Não sei! Não faço ideia e não estarei aqui para, com meu jeitinho mandão, dominador e controlador, intervir, decidir, orientar, dar ordens e tomar a frente da organização das coisas. Achei de bom tom deixar algumas orientações na esperança que alguém se lembre de tê-las lido! Algo parecido com um testamento. Quem sabe ajude nesta hora em que costumamos perder o chão e o rumo?
Primeiro: Recuperem o folego!
Alguns terão a sensação de ter levado um soco na boca do estômago, outros perderão o senso de orientação, mas o principal, no momento, será voltar a respirar.
Respirem devagar, lentamente, expandindo o diafragma e soltando o peso dos ombros, até voltar ao normal.
Vai ajudar a colocar os pensamentos em ordem!
Segundo: Não se desesperem!
O desespero de vocês não vai me trazer de volta, não acalentará seus corações, nem os fará entender o que não pode ser entendido.
É o curso da vida! Ponto!
Não faço ideia do que me tirará deste plano! Nem faço a mínima questão de saber.
Então, em vez de desespero, façam uma prece de agradecimento, se meu sofrimento chegou ao fim; por tudo que eu possa ter representado para cada um ou uma prece de despedida e saudades se acreditarem que ainda não estavam preparados para tal, mesmo tendo consciência que eu já iria, porque este é a única certeza que temos em vida.
Terceiro: Lembrem-se de mim em vida e sorriam!
Sorriam no velório, no enterro, na despedida... Mesmo que o sorriso seja triste e molhado pelas lágrimas.
Lembrem-se das doideiras, das leseiras, dos micos que paguei e que fiz cada um pagar...
Contem as histórias da nossa convivência, das raivas que acabaram em risadas, da cumplicidade de olhares naqueles momentos sérios em que tivemos de segurar o riso...
Quarto: Cantem!
Cantarolem baixinho, cantem em plenos pulmões as músicas que eu gostava, as que dediquei a cada um, as que me trazem as suas lembranças, as que são a minha cara, mesmo que nunca as tenhamos cantado juntos!
Tragam uma ciranda, um coco de roda, uma roda de samba, um frevo rasgado... Tem mais a minha cara!
Quinto: Não vistam preto!
Por mais dolorida que tenha sido a minha vida ou a minha passagem, minha alma nunca foi escura e sombria! Sempre busquei e achei, de alguma forma, minha paz interior. E isto fez minha alma brilhar de cores diferentes, pálidas ou vibrantes, mas definitivamente, colorida.
O sentimento não está em uma cor que padronizaram como sendo respeito a dor.
Então, venham coloridos! De todas as cores, por mais difícil que tenha sido entender a minha partida.
Sexto: Flores e fotos!
Gosto de flores! Podem levar se assim o desejarem, mas preferiria antes que as coroas fossem feitas de fotos nossas. Dos momentos que passamos juntos, que foram tão bem vividos e que serão lembrados para sempre... Mesmo que o para sempre seja de vez em quando porque não quero idolatria!
Sétimo: Respeitem-se!
Não precisarei, depois de desencarnada, de padre, pastor, rabino, pai de santo... O que fiz em vida me levará até onde tenho que ir. Tranquilamente!
Mas cada amigo que quiser elevar uma prece que me acompanhe neste momento de despedida, que o faça! Independente de que religiões professem! Deixem que as velas sejam acessas pelos que acreditam nelas! Não atrapalharão em nada a minha viagem.
Acatem, aceitem e acolham cada oração, mesmo que não acreditem em uma palavra. Por mim! E, se possível, deem-se as mãos!
Façam circular a energia positiva de cada um, como sempre procurei fazer!
Oitavo: Eu amei vocês!
Não importa se foram filhos, a quem em vida deixei meus bens maiores, a educação, o caráter, a honestidade e a força de vontade de fazer o possível para fazer o certo; amigos a quem abertamente falei ou só demonstrei por gestos e atitudes; amores da minha vida, porque cada um o foi ao seu tempo, a quem me dediquei de corpo e alma (e não vamos entrar nos méritos das consequências disto...); a minha profissão; aos lugares que escolhi para mim...
Amei! E tudo que precisam saber, caso reste alguma dúvida!
Tudo acordado? Tudo entendido?
Então só me resta descansar em paz tendo a certeza de que vivi e que deixei sementes que darão árvores de boa cepa!! E como foi bom viver!

Gustav Klint - Árvore da vida


(Antes que se desesperem: não pretendo morrer tão cedo, mas isto é uma vontade minha!. Não estou deprimida, apenas vivenciei coisas estas semana que me levaram a refletir sobre como eu gostaria de ser tratada quando não mais me encontrasse neste plano e vocês ainda vão me aturar muito!!)

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Mapeando

Pessoas, algumas vezes me perguntam o segredo para ter boa memória e lembrar de tanta gente, tantos lugares, tantos detalhes de histórias tão antigas.
A resposta talvez esteja no provérbio africano: A AMIZADE É UM CAMINHO QUE DESAPARECE NA AREIA SE NÃO SE PISA CONSTANTEMENTE NELE.
Nunca deixei de pisar os caminhos de minhas amizades! Muitas vezes, quase sempre, as pegadas que ficavam eram somente as minhas... Mas elas sempre deixaram os rastros, as marcas, o mapa do caminho traçado.
Se por algum acaso, eles visitassem os mesmos caminhos, nós nos reencontraríamos. E reencontrei muitos nestas visitas aos caminhos! E eles me trouxeram outros que deixaram pegadas que revisito sempre!!
Foi revisitando Soahd Arruda Rached Farias que ganhei Abdalah Rached (e parece que eu oo conheço desde sempre!!); foi revisitando Claudia Coutinho Soares Soares que resgatei Alberto Porto QuirinoClevson Coutinho SoaresRoberto de Almeida e por eles resgatei Luciano De Araujo Gusmão e Flávio Meira Lima e deste último ganhei Jurandir Araújo; foi revisitando sei lá o quê que resgatei Liliane Cordeiro de Morais, Ludmila Matias, Tadeu Mathias... Entre tantos outros...
E outros eu gostaria de encontrar e, pelo menos, saber como estão: Cassiano Faria, Fernando Sérgio, Jefferson Guedes, Dorcas, Mercedes Souza, Lyndon Johnson, Valdívia, Eder Trevas, Doralice...
Se eles vão lembrar de mim? Pouco importa! Importa que eu me lembre deles! Importa que, de alguma maneira, eles fizeram parte da minha vida e, consequentemente, formaram parte do que sou hoje!
Os marcos estão lá! É só voltar, reacender, relembrar... Não esquecer! Visitar para fortalecer vínculos e para formar outros! Outros que muitas vezes se tornam mais fortes que os primeiros formados.
Nunca excluí ninguém do meu círculo de amizade! Ele é, lógico, circular! Um dia, de alguma forma, a gente volta a se encontrar!
O mapa da volta, eu já fiz questão de marcar...

(Ontem foi o Dia da Amizade. Na véspera, sem nem lembrar deste fato, compartilhei uma homenagem que fiz aos meus amigos no letrasemretalhos.blogspot.com.br e, como continuo acreditando que todo dia é dia de amizade, de amigo, de relações interpessoais, deixo minha homenagem, meu abraço, meu carinho, minha lembrança a todos que fazem parte do meu chamado 'círculo de amizades'! Não importa quão íntima seja nossa relação; quão próximo estejamos ou do quanto você lembra de mim!
Como diz a canção: QUALQUER DIA AMIGO EU VOLTO A TE ENCONTRAR... nem que seja nas redes sociais)


(Texto publicado originalmente na minha página no Facebook!)



Foto Elaine Oliveira - São José da Coroa Grande - PE


Colagem feita a partir das fotos de perfil do Facebook



segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Despedidas, encontros e despedidas.

             O olho bateu no olho e parecia que todo ar do lugar havia desaparecido. O que restava era pouco para ser dividido pelos dois! De repente, parecia que a única coisa que emitia som era dois corações que batiam na mesma cadência acelerada e ritmada enquanto queriam saltar do peito.
            As crianças que se conheceram, os adolescentes que se separaram, reencontravam-se agora, homem e mulher. Fios brancos começavam a colorir os cabelos de ambos. Visíveis nele, escondidos nela pela tintura de um tom semelhante ao dele. Tinha cabelo castanho quando se conheceram.
            Encontraram-se nos corredores de um shopping da cidade que visitavam. Ele a trabalho, ela a passeio. Pensava sempre se a reconheceria, caso a visse depois de tanto tempo, mas no fundo sempre soube que sim. Agora tinha certeza. Os olhos desafiadores, os lábios cheios que exibiam o mesmo sorriso e os cachos, mesmo que de cor diferente, continuavam lá e emaranhados como se o vento insistisse em brincar com eles.
            Foi ela quem tomou a iniciativa de atravessar o pequeno espaço que os separava. Caminhava segura, sabendo para onde ia.
            - Acho que já te vi em algum lugar. Oi, anjo! Falava como se o tivesse visto no dia anterior e não há quase vinte anos atrás e sorria.
            As mãos estendidas se apertaram e ele usou o velho hábito de esfregar os polegares sobre o dorso da mão dela.
- Posso? Perguntou ela levantando os braços.
Em vez de responder, ele a abraçou como sonhara tantas vezes: apertado, apertado, colado, cheirando o pescoço por baixo do cabelo, tirando-a do chão para não dobrar a coluna. O corpo leve pendurado em seu pescoço tinha a respiração alterada e um cheiro bom de jasmim.
Soltou-a e viu, ou melhor, não viu seus olhos por causa do riozinho que teimava em não transbordar deles. Os dele estavam iguais.
Ela mordeu o lábio inferior. Tinha sempre este gesto quando estava nervosa. Levantou a mão e passou na têmpora dele:  
- Teu cabelo está ficando branco...
- O teu mudou de cor...
Coisas amenas, comentários soltos... Tantas coisas a dizer e sem saber por onde começar.
A turma que estava com ela avisou que estava indo embora e ele também tinha compromisso. Marcaram um jantar e se descobriram no mesmo hotel. Despediram-se: ela caminhando olhando para trás, ele parado na ponta da escada rolante esperando vê-la sumir – de novo não!, pensou!
Mas à noite ela estava lá, no lugar marcado. De vermelho, vários tons, para combinar com o batom e com a sua própria aura. Vermelho intenso, puro fogo.
Sabiam que não conseguiriam comer. Não dava para digerir jantar e vinte anos de histórias em um mesmo momento. Andar era melhor.
A praia parecia ter sido enfeitada só para eles. Um mar alto quebrando na areia e uma lua imensa estampada no céu que derramava seu brilho sobre o mar.
Caminharam lado a lado. Ele algumas vezes, afastando os cabelos dela do rosto, em outras, olhando-a, até que as mãos se encontraram e não se largaram mais.
Ela subiu na mureta da calçada para ficar da altura dele. Nem assim. E ele sorriu. Outro hábito antigo e tão atual!
Uma banca de revistas desviou a atenção do rapaz que de lá voltou com um pacote dourado com marrom: caramelos de chocolate. Ele sempre a presenteava com caramelos.
Sentaram na mureta do calçadão e por mais algum tempo, nenhum deles falou e ele deitou a cabeça no colo dela.
O cabelo macio foi acarinhado com calma e delicadeza até que uma pergunta cortou a noite:
- Por que você me tirou da sua vida?
Não era fácil tentar explicar que a menina atrevida que era não se permitia conquistar porque achava que era dona do mundo e havia outros mundos a ser conquistado; que tinha medo daquele amor menino, tão imenso que parecia de gente grande; que ardeu de febre ao mandá-lo embora, mas que não tinha sido grande o suficiente para pedir que voltasse; que doeu mais ainda abandonar a cidade, porque era lá que ele estaria; que cada falha dos namorados seguintes era comparada aos acertos dele; que doía sentir saudades das mãos no corpo, da exploração quente do corpo, de uma língua macia invadindo cada palmo do seu corpo, do arfar da respiração, do suor do gozo, do grito, do êxtase que nunca sentiram juntos por serem ainda tão crianças; que ele foi o homem certo na hora errada e que, acima de tudo, doía agora não ter mais direito de sentir saudades.
Falou em um só fôlego e a voz, em alguns momentos da narrativa, falhou. Se parasse para pensar, tinha certeza que não conseguiria terminar.
O olhar dele, perdido no clarão da lua, deixava cair as lágrimas que o menino não derramara tanto tempo antes e a mão, por cima do ombro dela, afagava a nuca de cabelos macios, como fazia e como nunca esquecera.
Nenhum dos dois falou nada depois disso. Um estava de novo na vida do outro. Os poucos minutos se arrastaram como a lentidão das horas. Ele procurava as palavras que pensou nunca precisar dizer e que queimavam do coração aos lábios. Como dizer que nunca tinha entendido direito a despedida; que sempre sonhou os dois juntos, em algum lugar do tempo; que reconstruíra a vida e que tinha uma relação estável com outra pessoa, apesar de tudo, sem magoar ainda mais aos dois? Mas as palavras vieram como chuva de verão, fortes, intensas, rápidas, menos a pergunta final, que saiu lenta e arrastada:
- Por que continua sozinha tanto tempo depois da separação? perguntou. Intuitivamente já sabia a resposta, mas não sabia se estava preparado para ouvi-la.
- Porque não achei você em ninguém que passou na minha vida.
-Posso? Perguntou ele puxando a cabeça dela de encontro a sua e invadindo, com a língua, o espaço da boca.
Não precisaram falar. Levantaram-se devagar, deram-se as mãos e voltaram para o hotel. Ele só apertou um botão no elevador.
Não foram necessárias palavras durante todo o resto da noite. Homem e mulher realizaram de todas as maneiras possíveis, os sonhos dos adolescentes. E a cada descoberta, uma nova estrela se acendia no céu, até que todas juntas, acenderam o sol.
Eles sabiam que o amanhecer traria o dia que os afastaria outra vez. Cada um de volta a sua realidade.
Alguma ideia para ficarem juntos? Um sequestro, um rapto... palavras tão rápidas quanto as ideias que, sabiam, não ia dar certo.
Saíram juntos para o dia ensolarado mais cinzento que já tinham visto e talvez nem tenham percebido que os pingos que caiam esparsos nas roupas não eram de chuva.
- Como a gente faz para parar o tempo? perguntou ele, ao se despedirem no saguão do aeroporto.
- Sonha! Respondeu ela. Sonha que estamos viajando a trabalho e que daqui a algum tempo um vai estar neste saguão, ou em outro qualquer, esperando o outro desembarcar. A mão gelada denunciava o que a voz firme dizia.
A voz do alto-falante, chamando para embarque imediato, interrompeu a conversa.
- Quando eu passar por aquele portão, você vai embora sem olhar para trás. Promete?
- Se você me prometer que, fazendo assim, não vai doer, eu prometo.
- Vem comigo? Perguntou com um sorriso triste. Queria te levar.
Tirou do dedo um anel com um crescente e uma estrela e entregou a ele.
- Vou sim!
Ele apertou o bibelô na mão, deu um último beijo e encaminhou-se para o avião, quase que andando de costas e durante toda decolagem, sabia que um par de olhos brilhantes acompanhava o avião.
Ela integrou-se ao grupo quase ao fim da tarde e ninguém percebeu a dor do seu coração. Só o brilho de uma aura feliz, embora machucada.
Ao regressar ao hotel, encontrou no quarto, um vaso vermelho, um ramalhete de rosas champanhe com bordas vermelhas e um envelope onde se encontrava um destes saquinhos de veludo, muito pequeno, aparentemente desgastado pelo tempo e um cartão escrito com uma caligrafia nunca esquecida.
Dentro do saquinho uma correntinha fina de ouro branco, seu metal favorito, de onde pendia um coração formado por três letras: ETA.
No cartão, sem assinatura se lia: Sempre foi seu e sempre esteve comigo. Com muitos anos de atraso... ETA.
Sorriu por entre as lágrimas que escorregavam devagar pela face.
As três letras foram divididas entre eles e espalhadas pelas calçadas, janelas, portas e pátios da escola como forma dele dizer que a amava. E agora, ele usava a mesma fórmula para dizer que dividiriam a mesma dor, tornando-a mais leve e, até que um dia, quem sabe...

Na cama: o beijo - Tolouse-Lautrec

(Sonia Rodrigues disse uma vez, em uma oficina da qual participei, que escritores quando querem escrever ficção escrevem suas biografias e quando querem escrever biografias, escrevem ficção. Escrevo, muitas vezes, para exorcizar histórias. Histórias minhas, de amigos, recolhidas nos ônibus e nos diversos corredores da vida. Histórias que se identificam, se cruzam ou se completam. Eu a escrevi há uns dez anos. Mas não a exorcizei. Deixei guardada como um tesouro! Era, pelo menos para mim era, e ainda é,um tesouro. Mas todo tesouro um dia tem que ser compartilhado. Mesmo que este tesouro seja o que está escrito e reservado a cada um. Hoje, a decisão de dar visibilidade ao meu tesouro é para permiti dois encontros e uma despedida: me encontrar, libertar o passado para que ele descanse em paz sabendo que sempre será amado e abrir as portas ao passado para que ele entre em paz para ser amado.)