segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

2016, apesar de tudo, obrigada!

Ontem já é ano passado, né? Ficou em 2016. Depois de sentar e refletir ‘pessoas, o que foi este ano?!’ e de pensar ‘já vai tarde’ vi que 2016 me observava de longe e com uma cara triste e pude perceber o que ele estava pensando.
Ele pensava que boa parte dos seus 366 dias foi composto, basicamente, de ‘eita!’, ‘oxi!’, ‘vige!’, ‘tacaporra!’, ‘lascou!’, ‘fudeu!’ e outras tantas expressões se surpresa, mas sempre ligadas a uma surpresa ruim. Mas pensava também que, em grande parte, ou na parte toda, ele não teve culpa, que não adiantava todos estarem mandando ele vazar; dizerem que já ia tarde; que ele teve, ao todo 732 dias; que é um ano a ser esquecido...
E no seu olhar me perguntou o que tinha feito de mal para mim.
Confesso que a pergunta me incomodou! Claro! Xinguei, reclamei, mandei vazar, perguntei o que diabos ele, 2016, estava fazendo com as nossas vidas... Mas o olhar dele para mim, na hora de ir embora, me incomodou... O que eu te fiz?
Parei para refletir. De fato, 2016 foi complicado. Só ele?
O povo que habitou 2016 não facilitou a vida dele em nada! E estes não foram embora. Talvez, diante dos contextos acusatórios tão populares nas mídias, tanto sociais quanto jornalísticas, eu pudesse dizer que demos um golpe em 2016. Conseguimos, pelo andar natural da carruagem, claro, manda-lo bastar, mas não demos a ele o direito de defesa.
Para mim, particularmente, 2016 não foi de todo mal. Poderia até dizer que ele foi simpático.
- Menina, você quebrou o pé e passou dois meses sem poder andar!
Verdade! Mas não foi 2016 que provocou o desnível na calçada que me fez quebrar o pé. Foi bom? Claro que não! Não andar e não poder fazer nada foi um saco, mas me ensinou, ainda que mal e porcamente, a ter um pouco de paciência, a entender que o mundo continua quando eu estou, temporariamente fora dele; que as pessoas, em sua minoria, oferecem ajuda (que eu deselegantemente em meu aprendizado, dispensei!), que outros te atropelam pela sua impossibilidade, o que me fez ver como é a vida daquelas cuja impossibilidade de movimento não é passageira...
- Mulher, teu salário quase não aumenta e hoje ele está sofrendo sem poder comprar o que tu compravas em 2015!
Outra verdade! Mas não foi 2016 que não deu o aumento ou que, ao contrário, remarcou os preços em tudo que preciso para sobreviver. Foram as pessoas que ele herdou de 2015, que herdou de 2014, que herdou de 2013, que herdou de 2012, que herdou...
- Criatura, e o mês que tu trabalhaste sozinha porque a chefa estava com problemas de saúde na família?
Claro que eu não queria que ninguém adoecesse, mas não para não trabalhar sozinha, apenas para que alguém não estivesse atravessando por momentos difíceis. Mas são momentos como estes, de dificuldades que não são nossas, que a gente pode se sentir útil, aprende o valor do trabalho em equipe, assume responsabilidades que nem sabia que podia dar conta... Enfim, foi sério, mas não foi comigo e não me cabe reclamar disto, além do fato de ficar feliz porque o problema caminha para uma solução positiva.
- E a polític...
Pode parar! Você vai fazer uma lista imensa de culpas de 2016 e eu, depois da fria análise da coisa, vou achar um álibi para inocentá-lo.
No que diz respeito a mim, 2016 me deu a oportunidade de continuar trabalhando, mesmo que algumas vezes tenha reclamado da falta de estrutura, de acordar cedo, do trânsito, do salário, de chegar tarde... Problemas no trabalho? Muitos!, mas muitos não tiveram nem emprego.
2016, mesmo com todo o medo que me acompanha, foi um ano onde nem eu, nem meus filhos fomos assaltados ou sentimos na pele a violência cotidiana. Alguns perderam bens materiais ou nem voltaram para casa porque perderam a vida.
Quanto ao quesito perder a vida, 2016 foi um ano no qual a Dama da Foice trabalhou incansavelmente e eu não perdi ninguém muito próximo, mesmo me solidarizando com a dor da perda dos outros.
2016 foi um ano de harmonia entre meus filhos, mesmo quando precisei apagar o incêndio de um retrocesso em decorrência de um quebra pau.
Em 2016 não adoecemos! Tivemos doencinhas bobas, claro: alergias, resfriados, sinusites, dores no corpo, estafa, estresse, queda ou alta de pressão.... Nenhuma causada por grandes males e que colocassem em risco nossas vidas. Todas contornáveis com os devidos cuidados.
Mas foi em 2016 que formei meu primeiro filho. Meu caçula. Professor como eu.
Em 2016, depois de adquirir os requisitos necessários para minha aposentadoria, dei entrada nela. Cinquenta e um anos de idade e 29 anos de serviço. Todos estes anos, graças a minha falta de juízo, sem precisar usar Rivotril e companhia quando muitos, com um ano de profissão, já precisam dele.
E 2016 me trouxe a notícia da chegada de Everton. Meninho sapeca, que não estava planejado para chegar porque a gente queria melhorar o mundo antes de sua vinda. Ele se antecipou, já é muito amado e fará, ele mesmo, parte da melhoria deste lugarzinho chamado mundo onde habitamos.
Então, o que tenho mesmo para reclamar de 2016?
Relembrei do seu olhar ao se despedir, em meio aos nossos festejos e comemorações, sem direito a um brinde de despedida...
2016, eu te devo desculpas. Sinto muito pela minha ingratidão. Se você não foi o ano que sonhei, foi o meu ano possível. Então, obrigada por tudo!
Obrigada, inclusive, por me mostrar que não adianta ganharmos um novo ano se não nos renovarmos, se não aprendermos a ser tolerantes, respeitosos, honestos, amáveis, educados, caridosos.... Sem isto vamos continuar jogando a culpa em todo velho ano e acreditando que, na conclusão de um movimento de translação, por um passe de mágica, tudo se resolve.
De antemão peço desculpas a 2017 pelas pessoas que ele herdou de você, inclusive eu, porque, sem atingir a perfeição, posso, com toda certeza, fazer alguma coisa da qual ele possa ser acusado, mas prometo me redimir e dizer que a culpa realmente foi minha, e não dele, caso isto aconteça.
Vá em paz, amigo 2016. Daqui eu vejo o que posso fazer para reabilitar seu nome.
Grata por tudo, sua amiga:

Elaine Oliveira

(Chega um tempo em que você cansa de ouvir 'feliz ano novo' e de acreditar que tudo muda com o encerrar de um ciclo de translação. Eu cansei de 'feliz ano novo!'. Então, que venha um 'feliz novo eu!', 'feliz você novo!'. Isto sim, construirá um novo tempo. Transforme-se!)
Transforme-se (Imagem da internet sem identificação do autor)