sábado, 22 de fevereiro de 2014

Testamento

Morri! E agora?!
Não sei! Não faço ideia e não estarei aqui para, com meu jeitinho mandão, dominador e controlador, intervir, decidir, orientar, dar ordens e tomar a frente da organização das coisas. Achei de bom tom deixar algumas orientações na esperança que alguém se lembre de tê-las lido! Algo parecido com um testamento. Quem sabe ajude nesta hora em que costumamos perder o chão e o rumo?
Primeiro: Recuperem o folego!
Alguns terão a sensação de ter levado um soco na boca do estômago, outros perderão o senso de orientação, mas o principal, no momento, será voltar a respirar.
Respirem devagar, lentamente, expandindo o diafragma e soltando o peso dos ombros, até voltar ao normal.
Vai ajudar a colocar os pensamentos em ordem!
Segundo: Não se desesperem!
O desespero de vocês não vai me trazer de volta, não acalentará seus corações, nem os fará entender o que não pode ser entendido.
É o curso da vida! Ponto!
Não faço ideia do que me tirará deste plano! Nem faço a mínima questão de saber.
Então, em vez de desespero, façam uma prece de agradecimento, se meu sofrimento chegou ao fim; por tudo que eu possa ter representado para cada um ou uma prece de despedida e saudades se acreditarem que ainda não estavam preparados para tal, mesmo tendo consciência que eu já iria, porque este é a única certeza que temos em vida.
Terceiro: Lembrem-se de mim em vida e sorriam!
Sorriam no velório, no enterro, na despedida... Mesmo que o sorriso seja triste e molhado pelas lágrimas.
Lembrem-se das doideiras, das leseiras, dos micos que paguei e que fiz cada um pagar...
Contem as histórias da nossa convivência, das raivas que acabaram em risadas, da cumplicidade de olhares naqueles momentos sérios em que tivemos de segurar o riso...
Quarto: Cantem!
Cantarolem baixinho, cantem em plenos pulmões as músicas que eu gostava, as que dediquei a cada um, as que me trazem as suas lembranças, as que são a minha cara, mesmo que nunca as tenhamos cantado juntos!
Tragam uma ciranda, um coco de roda, uma roda de samba, um frevo rasgado... Tem mais a minha cara!
Quinto: Não vistam preto!
Por mais dolorida que tenha sido a minha vida ou a minha passagem, minha alma nunca foi escura e sombria! Sempre busquei e achei, de alguma forma, minha paz interior. E isto fez minha alma brilhar de cores diferentes, pálidas ou vibrantes, mas definitivamente, colorida.
O sentimento não está em uma cor que padronizaram como sendo respeito a dor.
Então, venham coloridos! De todas as cores, por mais difícil que tenha sido entender a minha partida.
Sexto: Flores e fotos!
Gosto de flores! Podem levar se assim o desejarem, mas preferiria antes que as coroas fossem feitas de fotos nossas. Dos momentos que passamos juntos, que foram tão bem vividos e que serão lembrados para sempre... Mesmo que o para sempre seja de vez em quando porque não quero idolatria!
Sétimo: Respeitem-se!
Não precisarei, depois de desencarnada, de padre, pastor, rabino, pai de santo... O que fiz em vida me levará até onde tenho que ir. Tranquilamente!
Mas cada amigo que quiser elevar uma prece que me acompanhe neste momento de despedida, que o faça! Independente de que religiões professem! Deixem que as velas sejam acessas pelos que acreditam nelas! Não atrapalharão em nada a minha viagem.
Acatem, aceitem e acolham cada oração, mesmo que não acreditem em uma palavra. Por mim! E, se possível, deem-se as mãos!
Façam circular a energia positiva de cada um, como sempre procurei fazer!
Oitavo: Eu amei vocês!
Não importa se foram filhos, a quem em vida deixei meus bens maiores, a educação, o caráter, a honestidade e a força de vontade de fazer o possível para fazer o certo; amigos a quem abertamente falei ou só demonstrei por gestos e atitudes; amores da minha vida, porque cada um o foi ao seu tempo, a quem me dediquei de corpo e alma (e não vamos entrar nos méritos das consequências disto...); a minha profissão; aos lugares que escolhi para mim...
Amei! E tudo que precisam saber, caso reste alguma dúvida!
Tudo acordado? Tudo entendido?
Então só me resta descansar em paz tendo a certeza de que vivi e que deixei sementes que darão árvores de boa cepa!! E como foi bom viver!

Gustav Klint - Árvore da vida


(Antes que se desesperem: não pretendo morrer tão cedo, mas isto é uma vontade minha!. Não estou deprimida, apenas vivenciei coisas estas semana que me levaram a refletir sobre como eu gostaria de ser tratada quando não mais me encontrasse neste plano e vocês ainda vão me aturar muito!!)

13 comentários:

  1. Muito bom! E ainda bem que não pretendes ir tão cedo...adoro seus textos, apesar de nunca comentar...vou deixar de preguiça e parar um pouquinho para dizer o quanto é bom ler o que você escreve. Beijos.

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  2. Compartilhei, o mundo precisa ler você! E viva a vida, ainda vai ter de me aturar por um bom tempo! E vou primeiro, combinado?

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  3. Gostei demais, Elaine. Em um período de perdas familiares, é importante repensar a tristeza e o luto. Pessoalmente, prefiro guardar as lembranças da vida... Sorrisos, micos, arrufos, momentos, momentos...

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    1. Gosto demais da vida, mesmo com tantas peças que ela tem me pregado para querer ser lembrada com tristeza.
      O melhor luto é o respeito aos que foram e ao que eles eram.
      Tristeza nos acaba, nos consome e não traz ninguém de volta!
      Fica em paz, assim como estão em paz os que te cuidam de outro plano agora.

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  4. Vendo agora seu "testamento" eu lembrei de alguns amigos que volta e meia me perguntam porque levanto tão cedo. E aí eu respondo que depois de uma certa idade eu tento maximizar o dia...Aproveitar ao maximo o que me resta...Sem dramas, apenas sendo racional...Tem gente que ao final de cada dia soma, eu diminuo...E não me acho cetico...A gente aproveita mais quando sabe valorizar cada minuto, cada segundo aqui nesse vale de lagrimas...E tem mais é de deixar documentado como voce faz e muito bem...

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    1. Eu tento aproveitar a vida, embora às vezes ela se aproveite de mim.
      E já vi tantas discussões inúteis depois que o espírito não mais habita o corpo, tantas lamentações que não levam a nada...
      Eu creio que estarei bem e bem cuidada.
      Que os que ficarem lembrem do que leram!

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  5. Muito bom! Como tudo que vem de você. E que bom saber que não pretende partir tão cedo... Seria difícil ficar com o seu sorriso só na lembrança. Ainda não é hora pra isso... Bjs

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  6. Demoro a entrar aqui e quando entro levo, de cara, um soco no estômago, uma facada no coração e um chute no meio das pernas. (Desculpe se não são termos para estarem aqui.)
    Li, entendi, assinei, mas não sei se lembrarei ou obedecerei. Aliás, não sei se sou tão forte a ponto de estar presente neste momento. Talvez não!
    No entanto, tenho a leve suspeita que você não morrerá nem tão cedo, nem nunca.
    Fênix não morrem. Jamais!

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    1. Fênix humanas morrem fisicamente, Alê! ;)
      Só temos o poder de permanecer vivas em mentes que queimam com a nossa lembrança!

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