Em todas as atividades pelo 8 de
março a que tenho ido, tenho escutado algumas coisas que me deixam um pouco
incomodada. As que ocupam os microfones
dizem que não querem ganhar rosas, chocolates e cartões porque estes atos não nos representam.
Participo das lutas e me desculpem,
esta afirmação não me representa.
Quero ganhar cartões, chocolates,
joias, perfumes e rosas. Por que não quereria? Só por que sou guerreira e lutadora? Isto não
me faz menos mulher ou menos feminina!
Presenteiem-me amigos, namorado,
companheiro de luta ou de vida, patrão desde que os motivos do presente
sejam sinceros.
Que me venham cartões no dia das
mulheres, no aniversário, no dia dos namorados, no Natal e no ano novo, no
final de um bom trabalho, porque passei em um concurso, porque conclui uma
etapa dos estudos ou apenas porque meu companheiro me viu na rua, descabelada,
de short e camiseta e pés no chão e me achou, simplesmente, linda!
Se os cartões apenas servirem
para pedir desculpas pelas vezes que tentaram me obrigar a fazer algo que eu
não quis, que me separaram dos meus amigos, que gritaram comigo em público ou
em particular, que me humilharam, que brincaram com a minha competência ou com
meus sentimentos, que disseram palavras que poderiam muito bem ter engolido... Esqueçam e economizem papel porque não tocaram
meu coração.
Que me tragam chocolates, sim! Ao
leite, crocantes, amargos, brancos, com recheios variados, em caixa ou em
barras. Tragam porque sabem que eu gosto mesmo sabendo que eu vou engordar (e
daí? Gosto de você assim mesmo!); é uma forma de dizer que me ama; porque o trabalho ficou fantástico mesmo
depois do prazo; está feliz e querendo distribuir felicidade aos outros; vamos ao cinema assistir aquele filme meloso
que ele detesta, mas eu amo; porque vai passar futebol na TV e eu detesto, mas
tendo chocolate a gente até torce junto...
Chocolate para tirar o gosto ruim
que um tratamento infeliz deixou na boca; para adoçar palavras amargas que
calaram fundo no peito; para tirar o mal estar do estômago depois de uma ação
agressiva? Agradeço e dispenso! Estes não me fazem falta!
Joias, por que não?! E podem ser bijuterias
mesmo! Que me enfeitem os dedos, braços,
pescoços e que sejam presenteadas a qualquer momento e não apenas em datas
comemorativas. Que elas me agradeçam uma atenção em um momento de tristeza;
comemorem uma meta alcançada ou simplesmente por achar, no caso de um
companheiro, que ela era perfeita para me enfeitar.
Não me servirão joias que tentem
me prender; comprar meu silêncio ou meu corpo; escondam marcas deixadas por
dedos furiosos em meus pulsos o pescoço. Nestes casos, todo diamante perde o
brilho.
E por que não querer perfumes?
Pelos mesmos tantos outros motivos já citados; ou porque gosto daquela fragrância
floral; ou pela lembrança de um cheiro que ficou na roupa...
Perfume que me faça sentir mais feminina, mais menina, mais sedutora e
que não sirva para disfarçar o cheiro da água sanitária, do alho, do coco das
crianças e muito menos para ocultar o
cheiro do sangue que fizeram escorrer de qualquer parte do meu corpo por
qualquer motivo que seja. Este perfume não me serve nem que tenha sido encomendado ao melhor
perfumista de Paris com o fragrância única e exclusiva para mim.
E quero rosas! Quero rosas, quero
flores! De todas as cores; roubada de um jardim para enfeitar os cabelos;
comprada na banquinha da esquina porque estou voltando de férias; comprada no sinal, só para ajudar o rapaz a ir
embora, e distribuída com todas no trabalho; para agradecer o melhor programa do mundo,
comer pipoca assistindo um filme qualquer da TV aberta; ou só porque deu
vontade de me agradar! Quero rosas e flores em vida enquanto puder apreciar
suas cores, sua maciez, seu perfume!
Não quero rosas para lembrar quem
eu fui, apenas no meu funeral ou embrulhadas no papel das lembranças e dos
remorsos dos vários machucados morais e físicos que me foram infringidos.
No entanto, quaisquer destes
presentes não terão valor algum se vierem de algum que desconheça algumas
palavras básicas e o que elas representam: direitos e respeito.
Quem quer que me presenteie
deverá entender que eu tenho os meus direitos e que eles são, em tudo, iguaizinhos
aos dele. E não são negociáveis! Por presente nenhum!
E que respeito é bom e todo mundo
gosta, inclusive eu na minha condição de mulher! E que o respeito aos meus
direitos, enquanto mulher, mãe, trabalhadora, amante, batalhadora já é um grande passo para poder transformar a vida de um monte de ‘EUS’ trazendo dignidade
e melhorando a qualidade de vida de cada um de nós.
Então, que as rosas, chocolates,
cartões, perfumes venham recheados de direitos e revestidos de respeito!
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| Claude Monet - Primavera |
(Texto publicado originalmente na minha página pessoal do Facebook.)