Morri! E agora?!
Não sei! Não faço ideia e não
estarei aqui para, com meu jeitinho mandão, dominador e controlador, intervir,
decidir, orientar, dar ordens e tomar a frente da organização das coisas. Achei
de bom tom deixar algumas orientações na esperança que alguém se lembre de tê-las
lido! Algo parecido com um testamento. Quem sabe ajude nesta hora em que
costumamos perder o chão e o rumo?
Primeiro: Recuperem o folego!
Alguns terão a sensação de ter
levado um soco na boca do estômago, outros perderão o senso de orientação, mas
o principal, no momento, será voltar a respirar.
Respirem devagar, lentamente, expandindo o diafragma e soltando o peso dos
ombros, até voltar ao normal.
Vai ajudar a colocar os pensamentos em ordem!
Segundo: Não se desesperem!
O desespero de vocês não vai me
trazer de volta, não acalentará seus corações, nem os fará entender o que não
pode ser entendido.
É o curso da vida! Ponto!
Não faço ideia do que me tirará deste plano! Nem faço a mínima questão de
saber.
Então, em vez de desespero, façam
uma prece de agradecimento, se meu sofrimento chegou ao fim; por tudo que eu
possa ter representado para cada um ou uma prece de despedida e saudades se
acreditarem que ainda não estavam preparados para tal, mesmo tendo consciência
que eu já iria, porque este é a única certeza que temos em vida.
Terceiro: Lembrem-se de mim em
vida e sorriam!
Sorriam no velório, no enterro,
na despedida... Mesmo que o sorriso seja triste e molhado pelas lágrimas.
Lembrem-se das doideiras, das
leseiras, dos micos que paguei e que fiz cada um pagar...
Contem as histórias da nossa convivência,
das raivas que acabaram em risadas, da cumplicidade de olhares naqueles
momentos sérios em que tivemos de segurar o riso...
Quarto: Cantem!
Cantarolem baixinho, cantem em
plenos pulmões as músicas que eu gostava, as que dediquei a cada um, as que me
trazem as suas lembranças, as que são a minha cara, mesmo que nunca as tenhamos
cantado juntos!
Tragam uma ciranda, um coco de
roda, uma roda de samba, um frevo rasgado... Tem mais a minha cara!
Quinto: Não vistam preto!
Por mais dolorida que tenha sido
a minha vida ou a minha passagem, minha alma nunca foi escura e sombria! Sempre
busquei e achei, de alguma forma, minha paz interior. E isto fez minha alma
brilhar de cores diferentes, pálidas ou vibrantes, mas definitivamente,
colorida.
O sentimento não está em uma cor
que padronizaram como sendo respeito a dor.
Então, venham coloridos! De todas
as cores, por mais difícil que tenha sido entender a minha partida.
Sexto: Flores e fotos!
Gosto de flores! Podem levar se
assim o desejarem, mas preferiria antes que as coroas fossem feitas de fotos
nossas. Dos momentos que passamos juntos, que foram tão bem vividos e que serão
lembrados para sempre... Mesmo que o para sempre seja de vez em quando porque
não quero idolatria!
Sétimo: Respeitem-se!
Não precisarei, depois de
desencarnada, de padre, pastor, rabino, pai de santo... O que fiz em vida me
levará até onde tenho que ir. Tranquilamente!
Mas cada amigo que quiser elevar
uma prece que me acompanhe neste momento de despedida, que o faça! Independente
de que religiões professem! Deixem que as velas sejam acessas pelos que
acreditam nelas! Não atrapalharão em nada a minha viagem.
Acatem, aceitem e acolham cada oração,
mesmo que não acreditem em uma palavra. Por mim! E, se possível, deem-se as
mãos!
Façam circular a energia positiva
de cada um, como sempre procurei fazer!
Oitavo: Eu amei vocês!
Não importa se foram filhos, a
quem em vida deixei meus bens maiores, a educação, o caráter, a honestidade e a
força de vontade de fazer o possível para fazer o certo; amigos a quem
abertamente falei ou só demonstrei por gestos e atitudes; amores da minha vida,
porque cada um o foi ao seu tempo, a quem me dediquei de corpo e alma (e não
vamos entrar nos méritos das consequências disto...); a minha profissão; aos
lugares que escolhi para mim...
Amei! E tudo que precisam saber,
caso reste alguma dúvida!
Tudo acordado? Tudo entendido?
Então só me resta descansar em
paz tendo a certeza de que vivi e que deixei sementes que darão árvores de boa
cepa!! E como foi bom viver!
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| Gustav Klint - Árvore da vida |
(Antes que se desesperem: não pretendo morrer tão cedo, mas isto é uma vontade minha!. Não estou deprimida, apenas vivenciei coisas estas semana que me levaram a refletir sobre como eu gostaria de ser tratada quando não mais me encontrasse neste plano e vocês ainda vão me aturar muito!!)