Quando
conheci MeuGuri ele tinha uns 14, 15 anos. Negro, cabelos pretos, magro, de uma
beleza fora dos padrões considerados normais. Mais alto que eu como qualquer
outro aluno daquela sala de segundo ano do segundo ciclo, hoje quinto ano.
Era
conhecido, temido e odiado, tanto na sede da escola quanto no anexo onde funcionava
nossa sala. O popular ‘pés da besta’, ‘peste dos infernos’, ‘cão do terceiro
livro’... E era! Era tudo isto, metaforicamente falando, e até um pouco mais,
eu diria.
Não
acompanhava os conteúdos da sua turma de origem, não aceitava ajuda no contra
turno para aprender o básico, não parava na sala de aula e circulava pela
pequena escola, com uma sala dentro da outra, desfiando professoras e batendo
em qualquer aluno com o qual cismasse e os únicos elogios que sabia dizer eram
palavrões. Para desespero geral, nunca faltava! Era sempre um dos primeiros a
chegar e o último a sair.
Um
dia envolveu-se em uma briga com outro aluno. Não teve culpa. Pelo menos não de
ter começado a briga. Sua culpa foi responder a agressividade do colega e se
tornar partícipe dela.
Necessário
se fazia chamar a família de ambos para uma reunião, no dia seguinte, com a
diretora da escola.
Vale
salientar que antes que eu pudesse intervir junto aos contendores, depois de
acalmado os ânimos, já recebia o chamado para comparecer a sede da escola, onde
recebi a ordem para chamar a família dos garotos.
No
dia seguinte MeuGuri chegou logo cedo ‘para se lascar’, em suas próprias
palavras, O outro aluno, nem ninguém da sua família compareceu a escola, assim
como também não estavam lá a família dele nem a diretora.
Com
raiva ele olhou para mim e perguntou se eu iria suspendê-lo. Nem tenho
autoridade para tal, nem você tem culpa para ser suspenso. Por isto estou aqui.
Para esclarecer o fato, respondi.
Ele
arregalou os olhos como se, pela primeira vez, alguém acreditasse na sua
inocência. Mas nós vamos ter uma conversa séria aproveitando que estamos
sozinhos, emendei em seguida.
O
cenário de uma biblioteca desarrumada, com livros e mesas empoeirados, escura e
quente, talvez fosse mais apropriado a um filme ‘noir’ de gangster do que a uma
conversa educativa.
MeuGuri
sentou na cadeira a minha frente, de cara fechada, cabeça baixa e muita raiva
no olhar, mas me ouviu caldo por uns bons vinte minutos. Falei das raivas que
me fazia; das pancadas nas outras crianças; nas palavras agressivas e
desrespeitosas que usava com todo mundo; na culpa que sempre levava, mesmo
quando não estava presente aos fatos... Perguntei se ele achava legal ser
odiado, temido e não ter ninguém na escola que gostasse dele...
- Você
não vai me fazer chorar, resmungou com os olhos cheios de lágrimas e a voz
embargada.
-
Nem quero! Mas se quiser chorar, pode chorar a vontade porque para mim, por
trás do cara de mau, metido a valente, você é somente um menino assustado e
como estamos sozinhos, não vou contar para ninguém. Quando acabar de chorar, a
gente volta a conversar.
-
Ninguém sabe da minha vida...
-
Então me conte e me ajude a entender.
Não
ouvi mais nenhuma palavra. Também não disse mais nenhuma. Esperei ele se
acalmar e propus voltarmos à escola.
No
meio do caminho olhei para ele e disse que aproveitasse o voto de confiança que
estava recebendo para mudar algumas atitudes e que se eu o encontrasse fazendo
besteira, em qualquer lugar, eu lhe daria uma bronca na frente de qualquer um.
Ele
parou no meio da rua e perguntou se eu sabia onde estávamos e se teria mesmo
coragem. Se você duvida, experimenta! Respondi passando a sua frente e dobrando
a esquina. MeuGuri ficou parado, pasmo como se tivesse visto assombração.
Alguma
coisa mudou no comportamento de MeuGuri: apareceram sorrisos mais espontâneos, diminuiu
o número de palavrões, passou a obedecer a mim quando estava azucrinando nos
outros espaços da escola. A mim e a Patricinha, a professora da outra sala.
Quase
tão menina quanto ele, Patricinha era a sua bonequinha, a namoradinha, a irmã
ajuizada, alguém que falava com ele de igual para igual mesmo mantendo a
distância que o cargo lhe conferia. Acho que o nosso jeito de trata-lo com
firmeza e carinho, mas sem desculpas para os erros, o fez mudar seu olhar e o
seu tratamento para conosco. Para nós ele era gente: gente problemática, mas
gente.
Patricinha
foi a primeira pessoa da escola para quem ele contou que estava envolvido com
drogas. Estava usando maconha.
Em um
fim de expediente ela chega para mim e pergunta: MeuGuri já te contou?
Com
a negativa, ela me manda esperar e volta pouco depois empurrando um Meu Guri
relutante pelas costas e ordena: conta!
-
Depois eu conto...
-
Agora!
E
ele contou! Passamos do nosso horário de largar, do horário do ônibus, do
horário da primeira aula na universidade conversando, tentando entender,
ajudar, convencer e sei lá mais quantos verbos couberam naquela conversa.
Demorou muito para que ele contasse tudo á mãe e mais um pouco até ela ir na
escola conversar comigo e para tentarmos buscar uma saída.
Neste
meio tempo apareceram novas, e quase imperceptíveis mudanças, aos olhos dos
outros, em seu comportamento: colocar o braço no ombro de alguém e puxar para
perto, rapidamente, a guisa de um abraço; tentar conversar com outras pessoas; ficar
mais calmo nas outras salas quando fugia da sua de origem; não fumar na nossa
frente ‘porque vocês não gostam’... Uma das coisas que gostava de fazer era me
tirar do chão e rodar. Para mim um gesto de carinho, para os outros um
desrespeito. Virou santo? Que nada! Ainda aprontava das suas. E muito!
Por
causa dele fui convidada a comparecer à sala da direção algumas tantas vezes.
Em uma das vezes ouvi que eu era condescendente demais; que estava apoiando
quem não tinha jeito (diretora, você estava comigo na hora das conversas
tantas?); que protegia demais (desculpa, mas nunca protegi nem os filhos!) e
que eu estava ali para dar aulas e não para ser psicóloga ou analista dos
problemas de MeuGuri.
Argumentei
que ele estava mudando, que precisava ser escutado por alguém, aconselhado e,
embora eu não fosse psicóloga, analista ou assistente social era em mim que ele
começava a depositar confiança. Fui interrompida com a informação:
- Vou
repetir: você não está aqui para ouvir os problemas de ninguém. Está aqui
apenas para dar aula.
-
Entendi! Respondi. Talvez algum traficante tenha tempo de ouvi-lo antes de
jogá-lo no mercado de trabalho, que é que costuma acontecer por aqui,
complementei saindo da sala para não mais voltar, já que pouco tempo depois o
anexo virou escola independente.
Entre
avanços e retrocessos nós seguimos em frente. Vi punições justas e outras
tantas injustas e chegamos ao final do ano. Hora de passarmos os alunos para a
nossa antiga sede pois, mesmo sem ter construído o conhecimento adequado à
etapa em que se encontrava, MeuGuri não podia ser retido.
E
ele pediu por isto. Pediu para ser reprovado, para não ser mandado para uma
escola onde todos os odiavam, para ficar conosco.
Lembrei-me
de uma conversa anterior quando perguntei o porquê dele querer tanto ficar na
escola se não queria, realmente, estudar.
-
Porque aqui ninguém me pega.
Aquela
escola onde ainda não gostavam dele de verdade, onde algumas pessoas ainda
agradeciam a sua ausência, que ainda não havia conseguido, de fato, despertar
seu interesse pelos estudos, era o seu refugio. Era nela que o fornecedor não o
alcançava, que ele não consumia.
Durante
aquele ano tivemos várias conversas: relacionamento com o pai omisso, com o padrasto
indiferente, mas de quem ‘eu até gosto’, a relação com a mãe, a chegada de um
irmão... Informações recebidas e que foram apagadas pelo tempo, mas que
resultaram em conselhos, em conversas com a mãe nas poucas vezes em que pode
atender ao chamado para conversar comigo, em busca de atividades alternativas
que o centrasse em outras coisas...
MeuGuri
foi mesmo para a outra escola e eu passei, ou voltei, a ouvira as mesmas
reclamações rotineiras quanto ao seu comportamento e, claro, não demorou muito
para que ele abandonasse a escola alegando que ‘aquele lugar não dá prá mim’.
Vez
por outra ele aparecia na escola procurando por mim ou por Patricinha. Nestes
momentos nós sabíamos que ele estava bem. Chegava alegre, contava como estava a
vida, escondia o cigarro comum para não levar bronca, mas levava do mesmo jeito.
Depois desaparecia.
Um
dia estava dando aula na área externa da escola quando ouvi alguém dizer:
-
Esta professora continua gata!
Sem
reconhecer a voz, virei e ele deu um sorriso, piscou o olho e abanou a mão
dando tchau. Mandei que ele parasse e esperasse para falar comigo decentemente.
Abri
o portão e ele, como de costume, me abraçou tirando do chão e rodando em plena
calçada e me dando um monte de beijos.
A
turma observava o encontro e um dos alunos perguntou se aquele era meu filho.
Respondi que não, que tinha sido meu aluno, que tinha ‘comido o meu juízo’, me
deixado de cabelos brancos, mas que eu amava de graça. Bem baixinho, ouvi
quando ele disse:
-
Pode dizer que sou seu filho.
Perguntei
o que tinha dito e ele respondeu que nada e continuou a conversa dizendo que
estava trabalhando, para ajudar a mãe a cuidar do irmão, vendendo macaxeira na
feira de Prazeres, que estava pensando em voltar a estudar, mas não naquela
escola ‘onde eu sou o cão’, que tinha deixado ‘aquele problema’. Sorri olhando
para o bolso da camisa onde se via o maço de cigarros.
-
Peraí, minha pequenininha! Já deixei o mais complicado e vou deixar este. Mas
não sei quando não, visse? Respondeu sorrindo e olhando por cima da minha
cabeça chamou a atenção da meninada que estava ocupada com a atividade que
estávamos fazendo e disse:
-
Respeito com ela viu, cambadinha? Ela é moral.
Me
abraçou de novo com tanta força que doeu todo o tórax, me deu mais um monte de
beijos e foi embora. Foi a última vez que o vi.
Saí
da escola no final do ano e alguns meses depois, ao encontrar Patricinha,
perguntei se tinha notícias dele. O espanto estampado no rosto já me fez
imaginar que alguma coisa errada estava acontecendo. Pensei que ele tinha feito
alguma grande besteira e estivesse preso.
Era
pior! Ela me diz que ele morreu. Morreu com vários tiros por, e os detalhes
novamente o tempo leva, envolvimento com tráfico de drogas, roubo de moto, as
duas coisas, não lembro mais. Mas estava morto!
Meu
coração levou um baque! MeuGuri não estava mais por aqui!
Não
sei o que ele fazia quando não estava bem e não vou defende-lo se machucou alguém ou lesou materialmente, caso tenha
furtado, roubado assaltado, porque esta parte eu nunca tomei conhecimento. Nem
por parte dele, nem por parte dos que moravam na área, nem por parte dos que
não gostavam dele. Mas na hora da notícia, eu só lembrava do menino de cara
amarrada, dos olhos tristes, do sorriso bonito, dos mesmos olhos agora meigos,
dos abraços rodados, dos montes de beijos, às vezes dados até para irritar, que
era a maneira pela qual ele conseguia demonstrar seu carinho.
Me veio
a lembrança o menino, o adolescente, o homem antes do tempo que eu não pude
ajudar de verdade, para o qual eu não achei saída a ponto de tirá-lo de um
destino marcado e agendado. A lembrança do menino que disse que eu podia chama-lo
de filho.
MeuGuri,
como tantos outros que passaram pelas minhas mãos, não chegou aos dezoito anos.
Não
vou carregar o peso de sua morte porque nos três anos de convivência fiz o
possível para ajuda-lo, para dar-lhe limites, para demonstrar que ele podia,
sim, ser amado por alguém que não fosse sua mãe.
Fazia
tempo que não pensava nele e não lhe dedicava uma oração. Que, mesmo com todos
os defeitos que tinha, ele possa ter sido recebido na casa do Pai e lhe tenha
sido dada a oportunidade de se arrepender das coisas que fez, inclusive contra
si mesmo, e encontrado um caminho de paz.
Tenho
a sensação de que a história chega ao fim faltando um pedaço. Talvez porque,
por ser a vida real, não tenha sido um final feliz. Talvez porque existam
lacunas que nela que nunca serão preenchidas, seja porque foram esquecidas,
seja porque nunca tenham sido ditas. Talvez porque, enquanto professora, que
não tem a obrigação de amar seus alunos, mas acaba se envolvendo com eles, a
realidade de não poder, de verdade, mudar uma realidade, ainda deixe a sensação
de incompletude.
Talvez
porque, enquanto eu estiver viva e professora for, meu destino seja estar ao
lado dos MeuGuris da vida. E, como estou viva, esta história ainda não
acabou...
 |
| Tintiliano - da série 'Menino triste' |
(Há algum tempo eu vinha me preparando para escrever a história de MeuGuri. Uma conversa, no Facebook, com meus amigos Flávio Meira Lima e Jurandir Araújo, que eu nomeei de 'conversa séria demais para um sábado de manhã', fez a história vir a tona.
Quem me conhece provavelmente saberá quem é MeuGuri, qual a escola, mas protegi seu nome, e o de Patricinha, para não ofender ninguém que, mesmo sem nome, tenha sido citado, ainda que indiretamente, na história.
Longa, dolorosa, talvez chata, mas contundentemente real e atual.)