O
olho bateu no olho e parecia que todo ar do lugar havia desaparecido. O que
restava era pouco para ser dividido pelos dois! De repente, parecia que a única
coisa que emitia som era dois corações que batiam na mesma cadência acelerada e
ritmada enquanto queriam saltar do peito.
As crianças que se conheceram, os
adolescentes que se separaram, reencontravam-se agora, homem e mulher. Fios
brancos começavam a colorir os cabelos de ambos. Visíveis nele, escondidos nela
pela tintura de um tom semelhante ao dele. Tinha cabelo castanho quando se
conheceram.
Encontraram-se nos corredores de um
shopping da cidade que visitavam. Ele a trabalho, ela a passeio. Pensava sempre
se a reconheceria, caso a visse depois de tanto tempo, mas no fundo sempre
soube que sim. Agora tinha certeza. Os olhos desafiadores, os lábios cheios que
exibiam o mesmo sorriso e os cachos, mesmo que de cor diferente, continuavam lá
e emaranhados como se o vento insistisse em brincar com eles.
Foi ela quem tomou a iniciativa de
atravessar o pequeno espaço que os separava. Caminhava segura, sabendo para
onde ia.
- Acho que já te vi em algum lugar.
Oi, anjo! Falava como se o tivesse visto no dia anterior e não há quase vinte
anos atrás e sorria.
As mãos estendidas se apertaram e
ele usou o velho hábito de esfregar os polegares sobre o dorso da mão dela.
- Posso? Perguntou ela levantando os
braços.
Em vez de responder, ele a abraçou
como sonhara tantas vezes: apertado, apertado, colado, cheirando o pescoço por
baixo do cabelo, tirando-a do chão para não dobrar a coluna. O corpo leve
pendurado em seu pescoço tinha a respiração alterada e um cheiro bom de jasmim.
Soltou-a e viu, ou melhor, não viu
seus olhos por causa do riozinho que teimava em não transbordar deles. Os dele
estavam iguais.
Ela mordeu o lábio inferior. Tinha
sempre este gesto quando estava nervosa. Levantou a mão e passou na têmpora
dele:
- Teu cabelo está ficando branco...
- O teu mudou de cor...
Coisas amenas, comentários soltos...
Tantas coisas a dizer e sem saber por onde começar.
A turma que estava com ela avisou que
estava indo embora e ele também tinha compromisso. Marcaram um jantar e se
descobriram no mesmo hotel. Despediram-se: ela caminhando olhando para trás,
ele parado na ponta da escada rolante esperando vê-la sumir – de novo não!,
pensou!
Mas à noite ela estava lá, no lugar
marcado. De vermelho, vários tons, para combinar com o batom e com a sua
própria aura. Vermelho intenso, puro fogo.
Sabiam que não conseguiriam comer. Não
dava para digerir jantar e vinte anos de histórias em um mesmo momento. Andar
era melhor.
A praia parecia ter sido enfeitada só
para eles. Um mar alto quebrando na areia e uma lua imensa estampada no céu que
derramava seu brilho sobre o mar.
Caminharam lado a lado. Ele algumas
vezes, afastando os cabelos dela do rosto, em outras, olhando-a, até que as
mãos se encontraram e não se largaram mais.
Ela subiu na mureta da calçada para
ficar da altura dele. Nem assim. E ele sorriu. Outro hábito antigo e tão atual!
Uma banca de revistas desviou a
atenção do rapaz que de lá voltou com um pacote dourado com marrom: caramelos
de chocolate. Ele sempre a presenteava com caramelos.
Sentaram na mureta do calçadão e por
mais algum tempo, nenhum deles falou e ele deitou a cabeça no colo dela.
O cabelo macio foi acarinhado com
calma e delicadeza até que uma pergunta cortou a noite:
- Por que você me tirou da sua vida?
Não era fácil tentar explicar que a
menina atrevida que era não se permitia conquistar porque achava que era dona
do mundo e havia outros mundos a ser conquistado; que tinha medo daquele amor
menino, tão imenso que parecia de gente grande; que ardeu de febre ao mandá-lo
embora, mas que não tinha sido grande o suficiente para pedir que voltasse; que
doeu mais ainda abandonar a cidade, porque era lá que ele estaria; que cada
falha dos namorados seguintes era comparada aos acertos dele; que doía sentir
saudades das mãos no corpo, da exploração quente do corpo, de uma língua macia
invadindo cada palmo do seu corpo, do arfar da respiração, do suor do gozo, do
grito, do êxtase que nunca sentiram juntos por serem ainda tão crianças; que ele
foi o homem certo na hora errada e que, acima de tudo, doía agora não ter mais
direito de sentir saudades.
Falou em um só fôlego e a voz, em
alguns momentos da narrativa, falhou. Se parasse para pensar, tinha certeza que
não conseguiria terminar.
O olhar dele, perdido no clarão da
lua, deixava cair as lágrimas que o menino não derramara tanto tempo antes e a
mão, por cima do ombro dela, afagava a nuca de cabelos macios, como fazia e
como nunca esquecera.
Nenhum dos dois falou nada depois disso.
Um estava de novo na vida do outro. Os poucos minutos se arrastaram como a
lentidão das horas. Ele procurava as palavras que pensou nunca precisar dizer e
que queimavam do coração aos lábios. Como dizer que nunca tinha entendido
direito a despedida; que sempre sonhou os dois juntos, em algum lugar do tempo;
que reconstruíra a vida e que tinha uma relação estável com outra pessoa,
apesar de tudo, sem magoar ainda mais aos dois? Mas as palavras vieram como
chuva de verão, fortes, intensas, rápidas, menos a pergunta final, que saiu
lenta e arrastada:
- Por que continua sozinha tanto tempo
depois da separação? perguntou. Intuitivamente já sabia a resposta, mas não
sabia se estava preparado para ouvi-la.
- Porque não achei você em ninguém que
passou na minha vida.
-Posso? Perguntou ele puxando a cabeça
dela de encontro a sua e invadindo, com a língua, o espaço da boca.
Não precisaram falar. Levantaram-se
devagar, deram-se as mãos e voltaram para o hotel. Ele só apertou um botão no
elevador.
Não foram necessárias palavras durante
todo o resto da noite. Homem e mulher realizaram de todas as maneiras
possíveis, os sonhos dos adolescentes. E a cada descoberta, uma nova estrela se
acendia no céu, até que todas juntas, acenderam o sol.
Eles sabiam que o amanhecer traria o
dia que os afastaria outra vez. Cada um de volta a sua realidade.
Alguma ideia para ficarem juntos? Um
sequestro, um rapto... palavras tão rápidas quanto as ideias que, sabiam, não ia
dar certo.
Saíram juntos para o dia ensolarado mais
cinzento que já tinham visto e talvez nem tenham percebido que os pingos que
caiam esparsos nas roupas não eram de chuva.
- Como a gente faz para parar o tempo?
perguntou ele, ao se despedirem no saguão do aeroporto.
- Sonha! Respondeu ela. Sonha que
estamos viajando a trabalho e que daqui a algum tempo um vai estar neste saguão,
ou em outro qualquer, esperando o outro desembarcar. A mão gelada denunciava o
que a voz firme dizia.
A voz do alto-falante, chamando para
embarque imediato, interrompeu a conversa.
- Quando eu passar por aquele portão,
você vai embora sem olhar para trás. Promete?
- Se você me prometer que, fazendo
assim, não vai doer, eu prometo.
- Vem comigo? Perguntou com um sorriso
triste. Queria te levar.
Tirou do dedo um anel com um crescente
e uma estrela e entregou a ele.
- Vou sim!
Ele apertou o bibelô na mão, deu um
último beijo e encaminhou-se para o avião, quase que andando de costas e
durante toda decolagem, sabia que um par de olhos brilhantes acompanhava o
avião.
Ela integrou-se ao grupo quase ao fim
da tarde e ninguém percebeu a dor do seu coração. Só o brilho de uma aura feliz,
embora machucada.
Ao regressar ao hotel, encontrou no
quarto, um vaso vermelho, um ramalhete de rosas champanhe com bordas vermelhas
e um envelope onde se encontrava um destes saquinhos de veludo, muito pequeno,
aparentemente desgastado pelo tempo e um cartão escrito com uma caligrafia
nunca esquecida.
Dentro do saquinho uma correntinha fina de ouro branco, seu metal favorito, de onde pendia um coração
formado por três letras: ETA.
No cartão, sem assinatura se lia: Sempre
foi seu e sempre esteve comigo. Com muitos anos de atraso... ETA.
Sorriu por entre as lágrimas que
escorregavam devagar pela face.
As três letras foram divididas entre
eles e espalhadas pelas calçadas, janelas, portas e pátios da escola como forma
dele dizer que a amava. E agora, ele usava a mesma fórmula para dizer que
dividiriam a mesma dor, tornando-a mais leve e, até que um dia, quem sabe...
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| Na cama: o beijo - Tolouse-Lautrec |

Sem palavras.
ResponderExcluirNeste caso específico eu tive que achar cada uma, cuidadosamente!
ResponderExcluirMas valeu a pena!
Obrigada, Ana Maria!
É tão emocionante quando a vida nos move por entre fios tão tênues e doces, flor!! Carpe diem!!
ResponderExcluirSinto muito orgulho por voce ter escrito isso...Eu escrevi vinte cartas pra minha musa...Nunca teria coragem de escrever algo tão denso e pessoal assim...Quem já vivenciou algo tão intenso sabe como é dificil traspor isso em palavras...Nunca desista Elaine...E escreva sempre...Deus te deu um dom. Não desperdice.
ResponderExcluirEscrevi muito, Abdalah, mas nunca tive coragem de mostrar para as pessoas porque acreditava que não o fazia com qualidade,
ExcluirE tive a certeza quando ouvi um professor dizer que quem escrevia poesias e contos sem determinados parâmetros, não fazia literatura.
Depois de muito tempo descobri que não quero fazer literatura! Quero tocar corações, almas, fazer com que as pessoas se identifiquem ou se perguntem 'e depois daqui?'. Foi quando resolvi começar a mostrar...
E você sabe que foi um dos grandes incentivadores!
Quem sabe um dia você também não escreva a história de Miss M e a transforme, nas letras, o que ela já é: uma grande história de amor?
Muito obrigada pelo apoio e carinho!
Delicadamente profundo. Um lembrança madura de quem guarda o frescor das manhãs. Gostei, Elaine. Gostei muito.
ResponderExcluirAlberto Amaral, um gostei vindo de você, vale por uma página inteira de boas avaliações em jornal de grande circulação! ;)
ResponderExcluirAgora, nem dá pra disfarçar, a minha autoestima ficou que nem balão...
ResponderExcluirConheci esta história antes mesmo dela ser história. E sempre, vou confessar abertamente, sempre tive ciúmes dela.
ResponderExcluirEu sempre soube que não seria o primeiro a ser lembrado. E também não consegui fazer por onde.
Mas, se tem uma pessoa que merece ser feliz, é você, pedacinho de gente. Vá e
seja. Seja muito feliz.
De coração mesmo!
Até que todas juntas acenderam o sol...
ResponderExcluirA vida nos oferece tão poucos momentos assim... Soube aproveitar cada segundo!
ResponderExcluirJá vim aqui várias vezes e sempre me pergunto se houve um reencontro, se outro avião levou, ou trouxe alguém para outro alguém...
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