Os
natais passados nem sempre foram memoráveis. Morávamos longe da maior parte do
resto das famílias, mamãe tinha um parentesco bem próximo com o Grinch e este
lado aflorava forte quando papai trabalhava, e ele sempre fazia isto, até tarde
na véspera de Natal.
Não
tínhamos tradição de confraternizar com vizinhos porque geralmente eles estavam
viajando para passar as festas com as famílias, então acabava sendo apenas a
gente e se dependesse da minha mãe a ceia seria às 18h e às 20h, no mais
tardar, todo mundo já estaria no terceiro sono.
Mas um
Natal ficou marcado. Acho que o ano era 1980.
Diferente
dos outros anos quando viajávamos em janeiro, neste ano passamos o Natal em
Recife. Especificamente na casa de Dona Valdertrudes também conhecida como tia
Tutu.
Dona
Val morava na Vila da Sudene. A casa não era grande e no meio da sala tinha uma
árvore que, na minha lembrança, parecia tomar um quarto dela, mas o que tinha
embaixo dela, os presentes ou as lembrancinhas, como dizia dona Ildete, minha
mãe, ‘só para não passar em branco’, tomava quase que todo o resto dela.
Eram
presentes e lembranças de todos, para todos: de parentes para parentes, de
parentes para amigos conhecidos e para as crianças, o presente do Papai Noel. E
a cada momento chegava alguém para deixar os presentes que iriam para debaixo
da árvore.
Se
fosse hoje, diríamos que cada um que lutasse para circular pela casa.
De
noite, tinha gente no terraço, no jardim, na rua, do outro lado da rua,
parentes conhecidos, parentes que a gente nem conhecia direito, amigos dos
parentes que já eram nossos amigos, amigos que a gente nunca tinha visto.
Não
lembro todos que estavam lá, mas a cada momento chegava mais e mais pessoas.
Minha lembrança, talvez supervalorizando o momento, registra que não cabia mais
ninguém, mas o povo continuava chegando.
Em
alguns pontos a minha memória falha: Papai Noel chegou antes do jantar? As
crianças jantaram antes dos adultos? Que horas distribuíram os presentes?
Lembro
que Papai Noel chegou e foi uma confusão fazê-lo chegar até a sala passando
pelo mar de presentes ao pé da árvore e chamar cada criança presente. Fiquei de
fora deste momento porque já tinha 15 anos e era velha demais para acreditar em
Papai Noel. Achei injusto? Sim, claro e com certeza!
Mas
daí veio a entrega dos presentes de todos, incluindo as crianças que já haviam
recebido o presente do Papai Noel. E aí era um tal de “De Fulano para Sicrano”
que para o Sicrano chegar na árvore e receber, sair para dar lugar ao próximo e
Fulano poder ir buscar o presente que Sicrano lhe deu era uma saga e uma
felicidade só, além do uso de um sistema de comunicação maravilhoso: quem
estava com o presente lia de quem para quem, os convidados espalhados pela casa
chamavam o nome do destinatário até que a gente ouvisse e conseguisse ir até a
árvore. E quando se conseguia sair da casa carregando um presente, depois de
muita luta para vencer o mar de gente e era chamado de volta para buscar outro?
Depois
dos presentes distribuídos, ou antes, porque como eu já disse, alguns detalhes
ficaram misturados na lembrança, Dona Val, a tia Tutu, reuniu todo mundo, de
mãos dadas, acho que em vários círculos porque não dava para ser um só, e fez a
oração de agradecimento antes da ceia.
Quando
voltamos a morar em Recife, achei que haveria outros natais como aquele. Não
houve!
Aquele
Natal será sempre uma doce lembrança de uma grande, barulhenta, confusa e
animada reunião de família!
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| Foto autoral - Elaine Oliveira https://www.youtube.com/watch?v=WgxZryQx4NI |
Há algum tempo eu
venho planejando escrever uma série chamada " #Antesqueamemóriaesqueça ”
lembrando de algumas velhas conversas familiares, repetidas a exaustão, todas
as vezes que duas ou três pessoas se reuniam.
A dinâmica do dia a
dia, nem sempre permite que a gente, família ou amigos, se reúna para reviver
os momentos, contar para filhos, sobrinhos e amigos, de maneira que eles possam
recontar quando não estivermos mais aqui.
Não pretendo que
seja uma biografia porque estas histórias contadas, exceção à regra, eram
aventuras e desventuradas que acabavam em boas gargalhadas. E pode ter certeza
que tenho uma coleção que poderia me transformar em uma comediante de stand up.
Mas hoje, depois de
vivenciar o natal, resolvi começar pelo espírito do natal passado. Claro que
trarei o espírito do natal presente que não é tão bucólico!
Aguardem!

Amei... Parabéns prima. Estarei sempre por aqui lhe prestigiando e me alegrando com suas histórias
ResponderExcluirAdoro essa época do ano, e sempre tenho boas lembranças do passado, da minha infância na casa da minha vó. Viajei no seu texto, ele me trouxe boas lembranças de casa. Obrigada.
ResponderExcluirAh esse natal! Foi mágico. Até hoje eu queria saber quem era aquele papai Noel e nunca contaram, nem quando passei da idade de crer. Sempre desconfiei que fosse Olavo.
ResponderExcluirMas melhor presente daquele ano eu ganhei da minha saudosa tia Mara, um joguinho de fichas azuis e vermelhas, que vai se colocando numa grade. Tem uns similares por aí.
Quanto ao Grinch que era minha mãe, hoje sou eu!
Na verdade cada um de nós pode ter um Grinch em si.
O trabalho, quando era trabalho, do meu era seu Grinch;
O mau humor da minha mãe, talvez se devesse a sua adolescência, e ela tenha achado que iria mudar com o tempo...
Os Grinchs são plantados em nós na nossa infância e nem sempre conseguimos nos livrar deles.
Eu luto, 364 dias, mas ele quase sempre me vence.
Ah! Aquele Natal... Talvez possamos fazer outro quando juntos estivermos na espiritualidade.
Adri