O fim de tarde pintava de vermelho e
púrpura o céu que ela via pela pequena janela da área de serviço onde estendia
as últimas peças de roupas. Fim de mais um dia de trabalho embora ainda
houvesse muito que fazer.
Há quanto tempo, se perguntou, não
parava para assistir o pôr do sol ouvindo simplesmente o nada? Era difícil
conseguir silêncio em uma casa com quatro crianças em idades variadas. Exigiam
tempo, cuidados e atenções diferenciadas que sempre, sempre, varavam as horas
da noite e da madrugada.
Daqui a pouco o marido chegaria, caso
não houvesse imprevistos, reclamaria do barulho, contaria o que aconteceu
durante o dia, tomaria banho, jantaria e diante da televisão, talvez lhe
perguntasse sobre o seu dia. Talvez!
Para quem os via, eram o par
perfeito, o casal ideal, que se conheceu na adolescência, fez de tudo para
ficar juntos, tiveram seus filhos e... se perderam em algum lugar do passado.
Os corpos estavam juntos, mas as almas, há muito que não se entendiam, ou o que
é pior, se ignoravam.
Ele construíra seu sonho, estudara,
formara-se, era engenheiro, tinha seu círculo de amigos, não abria mão da sua
pelada de fim de semana... E ela?
De repente deu-se conta que não sabia
onde, nem quando, havia perdido seus sonhos. Também quisera ser engenheira,
quisera revolucionar e transformar o mundo e agora percebia que somente o seu
mundo se modificara. Mas para o que?
O silêncio ao seu redor indicava que
as crianças dormiam. Em que momento lhes dera banho, comida e lhes colocara na
cama? Tinha feito tudo no automático. Sua vida seria sempre automática como
respirar? Em que momento pararia para sentir o caminho do ar no seu corpo:
narinas, laringe, brônquios, pulmões e volta ao exterior? Experimentou. Era
bom! Experimentou de novo desta vez na janela, e foi melhor ainda.
O toque do telefone desviou seu
pensamento. Mais uma vez jantaria sozinha.
O banho morno era relaxante, mas
tinha que ser rápido. E se o mais novo acordasse tossindo ou com pesadelo ou
chorando?
Não entendeu porque não colocou uma
roupa de dormir. Escolheu uma roupa leve: calça de malha e camiseta. Olhou para
o guarda roupa e resolveu ignorar a piscada de olho da trouxa de roupa que
esperava ser passada.
Voltou
para a sala, e escolheu um disco: Gilberto Gil. E só uma música: Drão. Gostava
de ouvi-la. Falava de reflexão de vida. Gostava de cantá-la para espantar a
tristeza. Nesta noite escutava, ouvia, degustava cada palavra. O disco repetia,
repetia e repetia sempre a mesma história.
Onde estaria a semente que germinara
um dia? Onde estavam as marcas que a dura caminhada deixara neste amor? Onde,
em que momento, a mulher fundiu-se com a esposa, a mãe, a filha perfeita e
deixara de existir?
Ouviu a porta abrir, sentiu um beijo
no alto da cabeça e ouviu algum comentário do tipo: já jantei, vou tomar um
banho e dormir, estou um caco ou algo semelhante.
Acha que sorriu, mas não tem certeza.
Sentiu outro beijo, ouviu um boa noite, um está tarde. E só! Nenhum comentário
sobre ela. Nada!
O som baixinho repetia a mesma música
sempre. As cenas de sua vida iam e viam como cenas de cinema: coloridas,
grandes, brilhantes e com som estéreo.
Começou a ver que filmaria algumas
cenas de modo diferente, trocaria a posição de alguns atores, provocaria novos
diálogos, melhoraria algumas luzes.
O silêncio era bom de ouvir, o vento
fresco que entrava pela janela, bom de sentir, olhar o céu estrelado era
encantador...
Levantou devagar e devagarzinho
entrou no quarto, pegou uma pequena bolsa no guarda roupa, trocou a sandália por
um par de tênis, entrou no quarto das crianças e ajeitou as cobertas de cada
uma. Voltou para a sala e escreveu um bilhete que colocou em cima da mesa.
Abriu a porta e saiu para o corredor. Não pegou o elevador. Desceu devagar os
cinco andares do prédio. O porteiro assustou-se, mas lhe respondeu o bom dia.
Fechou o portão da rua, respirou
fundo o cheiro da madrugada e seguiu pela rua em frente. Se fazia frio, não
sentia. A sua frente o sol pintava, no horizonte, de vermelho e laranja, o céu.
Tem que morrer prá germinar...
(Esta semana uma amiga me disse que sentia inveja, uma inveja boa, da minha opção de ficar sozinha. Sim! Porque eu estou sozinha por opção e consciência! e me lembrei deste texto, escrito a tanto tempo que fala, e ao mesmo tempo não fala, de mim, desta amiga, daquela outra que nunca falou, mas que eu entendo só pelo olhar...)

Realidade escondida em tantos olhares...
ResponderExcluirLuta diaria ..Realidades..... Fantasias...e Sentimentos.....
ResponderExcluirOtima cronica...Acompanho sempre...
ResponderExcluirAbdalah, talvez você nem saiba que alguns comentários seus ao que eu escrevo no Facebook me fez ter coragem de mostrar outros escritos.
ResponderExcluirSeja bem vindo, sempre!
Conheci uma garota que passou por momentos semelhantes a estes.
ResponderExcluirUm dia ela foi embora e eu esperei. Esperei até receber uma carta que me foi entregue na rodoviária quando eu esperava vê-la descer do ônibus.
Espero, do fundo do meu coração, que no bilhete não estejam escritas palavras como as que li e que ele tenha tempo de consertar o que foi trincado dentro dela.
Anônimo, como alguns pontos, de muitas histórias, serviram de inspiração, posso te dizer que alguns não tiveram tempo, assim como você de consertar as coisas.
ExcluirOutros ainda estão tentando firmemente.