domingo, 7 de julho de 2013

Do entardecer ao amanhecer

O fim de tarde pintava de vermelho e púrpura o céu que ela via pela pequena janela da área de serviço onde estendia as últimas peças de roupas. Fim de mais um dia de trabalho embora ainda houvesse muito que fazer.
Há quanto tempo, se perguntou, não parava para assistir o pôr do sol ouvindo simplesmente o nada? Era difícil conseguir silêncio em uma casa com quatro crianças em idades variadas. Exigiam tempo, cuidados e atenções diferenciadas que sempre, sempre, varavam as horas da noite e da madrugada.
Daqui a pouco o marido chegaria, caso não houvesse imprevistos, reclamaria do barulho, contaria o que aconteceu durante o dia, tomaria banho, jantaria e diante da televisão, talvez lhe perguntasse sobre o seu dia. Talvez!
Para quem os via, eram o par perfeito, o casal ideal, que se conheceu na adolescência, fez de tudo para ficar juntos, tiveram seus filhos e... se perderam em algum lugar do passado. Os corpos estavam juntos, mas as almas, há muito que não se entendiam, ou o que é pior, se ignoravam.
Ele construíra seu sonho, estudara, formara-se, era engenheiro, tinha seu círculo de amigos, não abria mão da sua pelada de fim de semana... E ela?
De repente deu-se conta que não sabia onde, nem quando, havia perdido seus sonhos. Também quisera ser engenheira, quisera revolucionar e transformar o mundo e agora percebia que somente o seu mundo se modificara. Mas para o que?
O silêncio ao seu redor indicava que as crianças dormiam. Em que momento lhes dera banho, comida e lhes colocara na cama? Tinha feito tudo no automático. Sua vida seria sempre automática como respirar? Em que momento pararia para sentir o caminho do ar no seu corpo: narinas, laringe, brônquios, pulmões e volta ao exterior? Experimentou. Era bom! Experimentou de novo desta vez na janela, e foi melhor ainda.
O toque do telefone desviou seu pensamento. Mais uma vez jantaria sozinha.
O banho morno era relaxante, mas tinha que ser rápido. E se o mais novo acordasse tossindo ou com pesadelo ou chorando?
Não entendeu porque não colocou uma roupa de dormir. Escolheu uma roupa leve: calça de malha e camiseta. Olhou para o guarda roupa e resolveu ignorar a piscada de olho da trouxa de roupa que esperava ser passada.
Voltou para a sala, e escolheu um disco: Gilberto Gil. E só uma música: Drão. Gostava de ouvi-la. Falava de reflexão de vida. Gostava de cantá-la para espantar a tristeza. Nesta noite escutava, ouvia, degustava cada palavra. O disco repetia, repetia e repetia sempre a mesma história.
Onde estaria a semente que germinara um dia? Onde estavam as marcas que a dura caminhada deixara neste amor? Onde, em que momento, a mulher fundiu-se com a esposa, a mãe, a filha perfeita e deixara de existir?
Ouviu a porta abrir, sentiu um beijo no alto da cabeça e ouviu algum comentário do tipo: já jantei, vou tomar um banho e dormir, estou um caco ou algo semelhante.
Acha que sorriu, mas não tem certeza. Sentiu outro beijo, ouviu um boa noite, um está tarde. E só! Nenhum comentário sobre ela. Nada!
O som baixinho repetia a mesma música sempre. As cenas de sua vida iam e viam como cenas de cinema: coloridas, grandes, brilhantes e com som estéreo.
Começou a ver que filmaria algumas cenas de modo diferente, trocaria a posição de alguns atores, provocaria novos diálogos, melhoraria algumas luzes.
O silêncio era bom de ouvir, o vento fresco que entrava pela janela, bom de sentir, olhar o céu estrelado era encantador...
Levantou devagar e devagarzinho entrou no quarto, pegou uma pequena bolsa no guarda roupa, trocou a sandália por um par de tênis, entrou no quarto das crianças e ajeitou as cobertas de cada uma. Voltou para a sala e escreveu um bilhete que colocou em cima da mesa. Abriu a porta e saiu para o corredor. Não pegou o elevador. Desceu devagar os cinco andares do prédio. O porteiro assustou-se, mas lhe respondeu o bom dia.
Fechou o portão da rua, respirou fundo o cheiro da madrugada e seguiu pela rua em frente. Se fazia frio, não sentia. A sua frente o sol pintava, no horizonte, de vermelho e laranja, o céu.


Crepúsculo em Veneza - Claude Monet

Tem que morrer prá germinar...

(Esta semana uma amiga me disse que sentia inveja, uma inveja boa, da minha opção de ficar sozinha. Sim! Porque eu estou sozinha por opção e consciência! e me lembrei deste texto, escrito a tanto tempo que fala, e ao mesmo tempo não fala, de mim, desta amiga, daquela outra que nunca falou, mas que eu entendo só pelo olhar...)

6 comentários:

  1. Realidade escondida em tantos olhares...

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  2. Luta diaria ..Realidades..... Fantasias...e Sentimentos.....

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  3. Abdalah, talvez você nem saiba que alguns comentários seus ao que eu escrevo no Facebook me fez ter coragem de mostrar outros escritos.
    Seja bem vindo, sempre!

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  4. Conheci uma garota que passou por momentos semelhantes a estes.
    Um dia ela foi embora e eu esperei. Esperei até receber uma carta que me foi entregue na rodoviária quando eu esperava vê-la descer do ônibus.
    Espero, do fundo do meu coração, que no bilhete não estejam escritas palavras como as que li e que ele tenha tempo de consertar o que foi trincado dentro dela.

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    1. Anônimo, como alguns pontos, de muitas histórias, serviram de inspiração, posso te dizer que alguns não tiveram tempo, assim como você de consertar as coisas.
      Outros ainda estão tentando firmemente.

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