Ontem já é ano passado, né? Ficou
em 2016. Depois de sentar e refletir ‘pessoas, o que foi este ano?!’ e de
pensar ‘já vai tarde’ vi que 2016 me observava de longe e com uma cara triste e
pude perceber o que ele estava pensando.
Ele pensava que boa parte dos
seus 366 dias foi composto, basicamente, de ‘eita!’, ‘oxi!’, ‘vige!’, ‘tacaporra!’,
‘lascou!’, ‘fudeu!’ e outras tantas expressões se surpresa, mas sempre ligadas
a uma surpresa ruim. Mas pensava também que, em grande parte, ou na parte toda,
ele não teve culpa, que não adiantava todos estarem mandando ele vazar; dizerem
que já ia tarde; que ele teve, ao todo 732 dias; que é um ano a ser esquecido...
E no seu olhar me perguntou o que
tinha feito de mal para mim.
Confesso que a pergunta me
incomodou! Claro! Xinguei, reclamei, mandei vazar, perguntei o que diabos ele,
2016, estava fazendo com as nossas vidas... Mas o olhar dele para mim, na hora
de ir embora, me incomodou... O que eu te fiz?
Parei para refletir. De fato,
2016 foi complicado. Só ele?
O povo que habitou 2016 não
facilitou a vida dele em nada! E estes não foram embora. Talvez, diante dos
contextos acusatórios tão populares nas mídias, tanto sociais quanto jornalísticas,
eu pudesse dizer que demos um golpe em 2016. Conseguimos, pelo andar natural da
carruagem, claro, manda-lo bastar, mas não demos a ele o direito de defesa.
Para mim, particularmente, 2016
não foi de todo mal. Poderia até dizer que ele foi simpático.
- Menina, você quebrou o pé e
passou dois meses sem poder andar!
Verdade! Mas não foi 2016 que
provocou o desnível na calçada que me fez quebrar o pé. Foi bom? Claro que não!
Não andar e não poder fazer nada foi um saco, mas me ensinou, ainda que mal e
porcamente, a ter um pouco de paciência, a entender que o mundo continua quando
eu estou, temporariamente fora dele; que as pessoas, em sua minoria, oferecem
ajuda (que eu deselegantemente em meu aprendizado, dispensei!), que outros te
atropelam pela sua impossibilidade, o que me fez ver como é a vida daquelas
cuja impossibilidade de movimento não é passageira...
- Mulher, teu salário quase não
aumenta e hoje ele está sofrendo sem poder comprar o que tu compravas em 2015!
Outra verdade! Mas não foi 2016
que não deu o aumento ou que, ao contrário, remarcou os preços em tudo que
preciso para sobreviver. Foram as pessoas que ele herdou de 2015, que herdou de
2014, que herdou de 2013, que herdou de 2012, que herdou...
- Criatura, e o mês que tu
trabalhaste sozinha porque a chefa estava com problemas de saúde na família?
Claro que eu não queria que
ninguém adoecesse, mas não para não trabalhar sozinha, apenas para que alguém
não estivesse atravessando por momentos difíceis. Mas são momentos como estes,
de dificuldades que não são nossas, que a gente pode se sentir útil, aprende o
valor do trabalho em equipe, assume responsabilidades que nem sabia que podia
dar conta... Enfim, foi sério, mas não foi comigo e não me cabe reclamar disto,
além do fato de ficar feliz porque o problema caminha para uma solução
positiva.
- E a polític...
Pode parar! Você vai fazer uma
lista imensa de culpas de 2016 e eu, depois da fria análise da coisa, vou achar
um álibi para inocentá-lo.
No que diz respeito a mim, 2016
me deu a oportunidade de continuar trabalhando, mesmo que algumas vezes tenha
reclamado da falta de estrutura, de acordar cedo, do trânsito, do salário, de
chegar tarde... Problemas no trabalho? Muitos!, mas muitos não tiveram nem
emprego.
2016, mesmo com todo o medo que
me acompanha, foi um ano onde nem eu, nem meus filhos fomos assaltados ou
sentimos na pele a violência cotidiana. Alguns perderam bens materiais ou nem
voltaram para casa porque perderam a vida.
Quanto ao quesito perder a vida, 2016
foi um ano no qual a Dama da Foice trabalhou incansavelmente e eu não perdi
ninguém muito próximo, mesmo me solidarizando com a dor da perda dos outros.
2016 foi um ano de harmonia entre
meus filhos, mesmo quando precisei apagar o incêndio de um retrocesso em decorrência
de um quebra pau.
Em 2016 não adoecemos! Tivemos
doencinhas bobas, claro: alergias, resfriados, sinusites, dores no corpo,
estafa, estresse, queda ou alta de pressão.... Nenhuma causada por grandes
males e que colocassem em risco nossas vidas. Todas contornáveis com os devidos
cuidados.
Mas foi em 2016 que formei meu
primeiro filho. Meu caçula. Professor como eu.
Em 2016, depois de adquirir os requisitos necessários
para minha aposentadoria, dei entrada nela. Cinquenta e um anos de idade e 29 anos de serviço. Todos
estes anos, graças a minha falta de juízo, sem precisar usar Rivotril e
companhia quando muitos, com um ano de profissão, já precisam dele.
E 2016 me trouxe a notícia da
chegada de Everton. Meninho sapeca, que não estava planejado para chegar porque
a gente queria melhorar o mundo antes de sua vinda. Ele se antecipou, já é
muito amado e fará, ele mesmo, parte da melhoria deste lugarzinho chamado
mundo onde habitamos.
Então, o que tenho mesmo para
reclamar de 2016?
Relembrei do seu olhar ao se
despedir, em meio aos nossos festejos e comemorações, sem direito a um brinde
de despedida...
2016, eu te devo desculpas. Sinto
muito pela minha ingratidão. Se você não foi o ano que sonhei, foi o meu ano possível.
Então, obrigada por tudo!
Obrigada, inclusive, por me
mostrar que não adianta ganharmos um novo ano se não nos renovarmos, se não
aprendermos a ser tolerantes, respeitosos, honestos, amáveis, educados,
caridosos.... Sem isto vamos continuar jogando a culpa em todo velho ano e
acreditando que, na conclusão de um movimento de translação, por um passe de
mágica, tudo se resolve.
De antemão peço desculpas a 2017
pelas pessoas que ele herdou de você, inclusive eu, porque, sem atingir a
perfeição, posso, com toda certeza, fazer alguma coisa da qual ele possa ser
acusado, mas prometo me redimir e dizer que a culpa realmente foi minha, e não
dele, caso isto aconteça.
Vá em paz, amigo 2016. Daqui eu
vejo o que posso fazer para reabilitar seu nome.
Grata por tudo, sua amiga:
Elaine Oliveira
(Chega um tempo em que você cansa de ouvir 'feliz ano novo' e de acreditar que tudo muda com o encerrar de um ciclo de translação. Eu cansei de 'feliz ano novo!'. Então, que venha um 'feliz novo eu!', 'feliz você novo!'. Isto sim, construirá um novo tempo. Transforme-se!)
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| Transforme-se (Imagem da internet sem identificação do autor) |

Querida Elaine, nada melhor que começar o ano - ou uma período que denominaram de "ano", com suas análises interessantes, dosando humor, causticidade, bom senso, alegria, irritação, reflexão. 2016 foi o que podia ter sido, consequnte a um passado que nos direcionou a isto. Tadinho,não teve culpa, mas vai guardar a mácula do medo, da desesperança e da incerteza. Por mais escritos como este e por melhores vivências! Beijo grande! Ana Maria
ResponderExcluirReabilitemos o bom nome de 2016 e que 2017 não tenha a mesma sorte!
ResponderExcluirBeijos, Ana!