terça-feira, 6 de maio de 2014

MeuGuri!

Quando conheci MeuGuri ele tinha uns 14, 15 anos. Negro, cabelos pretos, magro, de uma beleza fora dos padrões considerados normais. Mais alto que eu como qualquer outro aluno daquela sala de segundo ano do segundo ciclo, hoje quinto ano.
Era conhecido, temido e odiado, tanto na sede da escola quanto no anexo onde funcionava nossa sala. O popular ‘pés da besta’, ‘peste dos infernos’, ‘cão do terceiro livro’... E era! Era tudo isto, metaforicamente falando, e até um pouco mais, eu diria.
Não acompanhava os conteúdos da sua turma de origem, não aceitava ajuda no contra turno para aprender o básico, não parava na sala de aula e circulava pela pequena escola, com uma sala dentro da outra, desfiando professoras e batendo em qualquer aluno com o qual cismasse e os únicos elogios que sabia dizer eram palavrões. Para desespero geral, nunca faltava! Era sempre um dos primeiros a chegar e o último a sair.
Um dia envolveu-se em uma briga com outro aluno. Não teve culpa. Pelo menos não de ter começado a briga. Sua culpa foi responder a agressividade do colega e se tornar partícipe dela.
Necessário se fazia chamar a família de ambos para uma reunião, no dia seguinte, com a diretora da escola.
Vale salientar que antes que eu pudesse intervir junto aos contendores, depois de acalmado os ânimos, já recebia o chamado para comparecer a sede da escola, onde recebi a ordem para chamar a família dos garotos.
No dia seguinte MeuGuri chegou logo cedo ‘para se lascar’, em suas próprias palavras, O outro aluno, nem ninguém da sua família compareceu a escola, assim como também não estavam lá a família dele nem a diretora.
Com raiva ele olhou para mim e perguntou se eu iria suspendê-lo. Nem tenho autoridade para tal, nem você tem culpa para ser suspenso. Por isto estou aqui. Para esclarecer o fato, respondi.
Ele arregalou os olhos como se, pela primeira vez, alguém acreditasse na sua inocência. Mas nós vamos ter uma conversa séria aproveitando que estamos sozinhos, emendei em seguida.
O cenário de uma biblioteca desarrumada, com livros e mesas empoeirados, escura e quente, talvez fosse mais apropriado a um filme ‘noir’ de gangster do que a uma conversa educativa.
MeuGuri sentou na cadeira a minha frente, de cara fechada, cabeça baixa e muita raiva no olhar, mas me ouviu caldo por uns bons vinte minutos. Falei das raivas que me fazia; das pancadas nas outras crianças; nas palavras agressivas e desrespeitosas que usava com todo mundo; na culpa que sempre levava, mesmo quando não estava presente aos fatos... Perguntei se ele achava legal ser odiado, temido e não ter ninguém na escola que gostasse dele...
- Você não vai me fazer chorar, resmungou com os olhos cheios de lágrimas e a voz embargada.
- Nem quero! Mas se quiser chorar, pode chorar a vontade porque para mim, por trás do cara de mau, metido a valente, você é somente um menino assustado e como estamos sozinhos, não vou contar para ninguém. Quando acabar de chorar, a gente volta a conversar.
- Ninguém sabe da minha vida...
- Então me conte e me ajude a entender.
Não ouvi mais nenhuma palavra. Também não disse mais nenhuma. Esperei ele se acalmar e propus voltarmos à escola.
No meio do caminho olhei para ele e disse que aproveitasse o voto de confiança que estava recebendo para mudar algumas atitudes e que se eu o encontrasse fazendo besteira, em qualquer lugar, eu lhe daria uma bronca na frente de qualquer um.
Ele parou no meio da rua e perguntou se eu sabia onde estávamos e se teria mesmo coragem. Se você duvida, experimenta! Respondi passando a sua frente e dobrando a esquina. MeuGuri ficou parado, pasmo como se tivesse visto assombração.
Alguma coisa mudou no comportamento de MeuGuri: apareceram sorrisos mais espontâneos, diminuiu o número de palavrões, passou a obedecer a mim quando estava azucrinando nos outros espaços da escola. A mim e a Patricinha, a professora da outra sala.
Quase tão menina quanto ele, Patricinha era a sua bonequinha, a namoradinha, a irmã ajuizada, alguém que falava com ele de igual para igual mesmo mantendo a distância que o cargo lhe conferia. Acho que o nosso jeito de trata-lo com firmeza e carinho, mas sem desculpas para os erros, o fez mudar seu olhar e o seu tratamento para conosco. Para nós ele era gente: gente problemática, mas gente.
Patricinha foi a primeira pessoa da escola para quem ele contou que estava envolvido com drogas. Estava usando maconha.
Em um fim de expediente ela chega para mim e pergunta: MeuGuri já te contou?
Com a negativa, ela me manda esperar e volta pouco depois empurrando um Meu Guri relutante pelas costas e ordena: conta!
- Depois eu conto...
- Agora!
E ele contou! Passamos do nosso horário de largar, do horário do ônibus, do horário da primeira aula na universidade conversando, tentando entender, ajudar, convencer e sei lá mais quantos verbos couberam naquela conversa. Demorou muito para que ele contasse tudo á mãe e mais um pouco até ela ir na escola conversar comigo e para tentarmos buscar uma saída.
Neste meio tempo apareceram novas, e quase imperceptíveis mudanças, aos olhos dos outros, em seu comportamento: colocar o braço no ombro de alguém e puxar para perto, rapidamente, a guisa de um abraço; tentar conversar com outras pessoas; ficar mais calmo nas outras salas quando fugia da sua de origem; não fumar na nossa frente ‘porque vocês não gostam’... Uma das coisas que gostava de fazer era me tirar do chão e rodar. Para mim um gesto de carinho, para os outros um desrespeito. Virou santo? Que nada! Ainda aprontava das suas. E muito!
Por causa dele fui convidada a comparecer à sala da direção algumas tantas vezes. Em uma das vezes ouvi que eu era condescendente demais; que estava apoiando quem não tinha jeito (diretora, você estava comigo na hora das conversas tantas?); que protegia demais (desculpa, mas nunca protegi nem os filhos!) e que eu estava ali para dar aulas e não para ser psicóloga ou analista dos problemas de MeuGuri.
Argumentei que ele estava mudando, que precisava ser escutado por alguém, aconselhado e, embora eu não fosse psicóloga, analista ou assistente social era em mim que ele começava a depositar confiança. Fui interrompida com a informação:
- Vou repetir: você não está aqui para ouvir os problemas de ninguém. Está aqui apenas para dar aula.
- Entendi! Respondi. Talvez algum traficante tenha tempo de ouvi-lo antes de jogá-lo no mercado de trabalho, que é que costuma acontecer por aqui, complementei saindo da sala para não mais voltar, já que pouco tempo depois o anexo virou escola independente.
Entre avanços e retrocessos nós seguimos em frente. Vi punições justas e outras tantas injustas e chegamos ao final do ano. Hora de passarmos os alunos para a nossa antiga sede pois, mesmo sem ter construído o conhecimento adequado à etapa em que se encontrava, MeuGuri não podia ser retido.
E ele pediu por isto. Pediu para ser reprovado, para não ser mandado para uma escola onde todos os odiavam, para ficar conosco.
Lembrei-me de uma conversa anterior quando perguntei o porquê dele querer tanto ficar na escola se não queria, realmente, estudar.
- Porque aqui ninguém me pega.
Aquela escola onde ainda não gostavam dele de verdade, onde algumas pessoas ainda agradeciam a sua ausência, que ainda não havia conseguido, de fato, despertar seu interesse pelos estudos, era o seu refugio. Era nela que o fornecedor não o alcançava, que ele não consumia.
Durante aquele ano tivemos várias conversas: relacionamento com o pai omisso, com o padrasto indiferente, mas de quem ‘eu até gosto’, a relação com a mãe, a chegada de um irmão... Informações recebidas e que foram apagadas pelo tempo, mas que resultaram em conselhos, em conversas com a mãe nas poucas vezes em que pode atender ao chamado para conversar comigo, em busca de atividades alternativas que o centrasse em outras coisas...
MeuGuri foi mesmo para a outra escola e eu passei, ou voltei, a ouvira as mesmas reclamações rotineiras quanto ao seu comportamento e, claro, não demorou muito para que ele abandonasse a escola alegando que ‘aquele lugar não dá prá mim’.
Vez por outra ele aparecia na escola procurando por mim ou por Patricinha. Nestes momentos nós sabíamos que ele estava bem. Chegava alegre, contava como estava a vida, escondia o cigarro comum para não levar bronca, mas levava do mesmo jeito. Depois desaparecia.
Um dia estava dando aula na área externa da escola quando ouvi alguém dizer:
- Esta professora continua gata!
Sem reconhecer a voz, virei e ele deu um sorriso, piscou o olho e abanou a mão dando tchau. Mandei que ele parasse e esperasse para falar comigo decentemente.
Abri o portão e ele, como de costume, me abraçou tirando do chão e rodando em plena calçada e me dando um monte de beijos.
A turma observava o encontro e um dos alunos perguntou se aquele era meu filho. Respondi que não, que tinha sido meu aluno, que tinha ‘comido o meu juízo’, me deixado de cabelos brancos, mas que eu amava de graça. Bem baixinho, ouvi quando ele disse:
- Pode dizer que sou seu filho.
Perguntei o que tinha dito e ele respondeu que nada e continuou a conversa dizendo que estava trabalhando, para ajudar a mãe a cuidar do irmão, vendendo macaxeira na feira de Prazeres, que estava pensando em voltar a estudar, mas não naquela escola ‘onde eu sou o cão’, que tinha deixado ‘aquele problema’. Sorri olhando para o bolso da camisa onde se via o maço de cigarros.
- Peraí, minha pequenininha! Já deixei o mais complicado e vou deixar este. Mas não sei quando não, visse? Respondeu sorrindo e olhando por cima da minha cabeça chamou a atenção da meninada que estava ocupada com a atividade que estávamos fazendo e disse:
- Respeito com ela viu, cambadinha? Ela é moral.
Me abraçou de novo com tanta força que doeu todo o tórax, me deu mais um monte de beijos e foi embora. Foi a última vez que o vi.
Saí da escola no final do ano e alguns meses depois, ao encontrar Patricinha, perguntei se tinha notícias dele. O espanto estampado no rosto já me fez imaginar que alguma coisa errada estava acontecendo. Pensei que ele tinha feito alguma grande besteira e estivesse preso.
Era pior! Ela me diz que ele morreu. Morreu com vários tiros por, e os detalhes novamente o tempo leva, envolvimento com tráfico de drogas, roubo de moto, as duas coisas, não lembro mais. Mas estava morto!
Meu coração levou um baque! MeuGuri não estava mais por aqui!
Não sei o que ele fazia quando não estava bem e não vou defende-lo se machucou  alguém ou lesou materialmente, caso tenha furtado, roubado assaltado, porque esta parte eu nunca tomei conhecimento. Nem por parte dele, nem por parte dos que moravam na área, nem por parte dos que não gostavam dele. Mas na hora da notícia, eu só lembrava do menino de cara amarrada, dos olhos tristes, do sorriso bonito, dos mesmos olhos agora meigos, dos abraços rodados, dos montes de beijos, às vezes dados até para irritar, que era a maneira pela qual ele conseguia demonstrar seu carinho.
Me veio a lembrança o menino, o adolescente, o homem antes do tempo que eu não pude ajudar de verdade, para o qual eu não achei saída a ponto de tirá-lo de um destino marcado e agendado. A lembrança do menino que disse que eu podia chama-lo de filho.
MeuGuri, como tantos outros que passaram pelas minhas mãos, não chegou aos dezoito anos.
Não vou carregar o peso de sua morte porque nos três anos de convivência fiz o possível para ajuda-lo, para dar-lhe limites, para demonstrar que ele podia, sim, ser amado por alguém que não fosse sua mãe.
Fazia tempo que não pensava nele e não lhe dedicava uma oração. Que, mesmo com todos os defeitos que tinha, ele possa ter sido recebido na casa do Pai e lhe tenha sido dada a oportunidade de se arrepender das coisas que fez, inclusive contra si mesmo, e encontrado um caminho de paz.
Tenho a sensação de que a história chega ao fim faltando um pedaço. Talvez porque, por ser a vida real, não tenha sido um final feliz. Talvez porque existam lacunas que nela que nunca serão preenchidas, seja porque foram esquecidas, seja porque nunca tenham sido ditas. Talvez porque, enquanto professora, que não tem a obrigação de amar seus alunos, mas acaba se envolvendo com eles, a realidade de não poder, de verdade, mudar uma realidade, ainda deixe a sensação de incompletude.

Talvez porque, enquanto eu estiver viva e professora for, meu destino seja estar ao lado dos MeuGuris da vida. E, como estou viva, esta história ainda não acabou...

Tintiliano - da série 'Menino triste'


(Há algum tempo eu vinha me preparando para escrever a história de MeuGuri. Uma conversa, no Facebook, com meus amigos Flávio Meira Lima e Jurandir Araújo, que eu nomeei de 'conversa séria demais para um sábado de manhã', fez a história vir a tona.
Quem me conhece provavelmente saberá quem é MeuGuri, qual a escola, mas protegi seu nome, e o de Patricinha, para não ofender ninguém que, mesmo sem nome, tenha sido citado, ainda que indiretamente, na história. 
Longa, dolorosa, talvez chata, mas contundentemente real e atual.)

9 comentários:

  1. De fato, Elaine, é conversa séria demais para um sábado de manhã. Ao ler seu texto, fui passando de emoção em emoção até o desfecho (o qual, confesso, desejaria um 'final feliz'... Há tanto o que refletir... Contudo, nesta primeira leitura, chamou minha atenção o "você está aqui para dar aulas'. Será nosso trabalho limitado a isto? Nem um sorriso, nem um gesto de humanidade e compaixão? Eu me senti mecanizada, parte das engrenagens de "Tempos Modernos"... E Patricinha? Que houve com ela?

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    1. Ana, até hoje esta frase batuca na minha cabeça.
      Tenho certeza que não teria conseguido, por todos os contextos apresentados ou não, salvar MeuGuri de um destino histórica e socialmente traçado, mas foram palavras muito duras.
      Patricinha começou a carreira muito menina e continua sendo uma excelente educadora. Acredito que ela tenha sido, talvez, a grande paixão da vida dele, mas ela tinha um namorado simplesmente fantástico.

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  2. Passamos por tantos " Meus Guris" nessa nossa caminhada... Me vi em algumas situações assim... Deu saudade e fiquei pensando o que fizeram de suas vidas.

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    1. Sil, sempre me pergunto quando nós, professores, principalmente de redes municipais, deixaremos de encontrar nossos MeuGuris nas páginas policiais e passaremos a vê-los nas formaturas dos cursos superiores, que é para os quais os preparamos.
      Também gostaria de saber de outros tantos que passaram pelas minhas mãos.

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  3. A vida nos traz histórias parecidas, mais cedo ou mais tarde... Li, me envolvi, saí de minha história e caí de paraquedas na sua, de corpo e alma: valeu a pena! Um abraço da tua amiga! <3

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    1. Gostaria dee ter escrito uma história mais leve e com final feliz.
      Mas, como dizia meu filho mais novo quando era pequenininho, a vida nem sempre acaba bem, né?!
      Grata por me acompanhar sempre.

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  4. Sua história me levou as lágrimas, me vi retratada na sua atitude de carinho, passei por inúmeras dessas situações, me envolvi, sofri, chorei e rezei um tanto de vezes que já perdi as contas. Como é possível que sejamos tão impotentes diante de circunstâncias corriqueiras e tão comuns na vida de quem trabalha com educação. Vc me fez lembrar de um aluno, cujo perfil se assemelha a esse seu guri, chamava-se André Ciríaco, lá da Escola Dom Hélder Câmara, como eu gostaria de saber que ele está vivo e feliz. Parabéns! Além de comovente, vc me fez voltar no tempo! bjus.

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    1. Rita, alguns Meuguris nos marcam a ferro e fogo. Destes sempre lembramos o nome e queremos saber o que fizeram das suas vidas.
      Mas são tantos, que nem sempre nos lembramos de todos.
      No entanto, enquanto escrevia a história, fui lembrando de vários que tiveram o mesmo fim e outros dos quais eu também gostaria de saber o destino.
      E que, de preferência, o destino lhes tenha sido leve...

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  5. Sempre achei que ser professora era fácil.
    Que tudo sempre dava certo no final, como as histórias que vocês contam para gente nas salas de aula...
    Acompanhando, de muito longe, a tua própria história, percebo o quanto me enganei.
    Pequenininha, como eu te acho grandiosa.

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